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Doutor Sócrates e as mulheres

Bia Abramo

 

“O futebol me disse: qual é a minha parte?

O futebol me disse: eu quero a minha parte.”

 Alex Antunes

 Na copa de 1982, a Seleção Brasileira conseguiu recuperar o lugar que havia conquistado em 1958 e perdido a partir de 1970: a de um time capaz de enfrentar uma competição dura e ao mesmo tempo operar com beleza e graça. Ao lado de Zico, Falcão, Júnior, estava ele, Sócrates.

 Ele também estava antes, em São Paulo, mais precisamente no Corinthians; aquele da Democracia Corintiana. Na experiência extraordinária, inédita e, salvo engano, jamais repetida de conduzir um grupo de atletas de um esporte tão emblemático quanto o futebol de uma forma avessa ao clima de autoritarismo e truculência, estava ele, o Sócrates (mais Biro-Biro, Casagrande, Basílio, Wladimir…).

Esses dois momentos foram decisivos para tingir o futebol da pátria de chuteiras de algumas nuances e malemolências de cunho feminino e feminista. Na real, a paixão pelo futebol nunca excluiu totalmente as mulheres, desde que espectadoras ou, no máximo, coadjuvantes.

 Por que organizados  em torno da palavra liberdade – cara ao Dotô, no apelido carinhoso de nosso amigo em comum, Xico Sá –, esses dois momentos permitiram que muitas mulheres e meninas encontrassem também no futebol portas de entrada (e saída) para suas questões de identidade. E, sim, para mulheres da minha geração, nascidas um pouco antes, pouco depois dos anos 60, identidade não era um tema simples.

 Os rompimentos iniciais com o patriarcado e o primado da reprodução na vida sexual estavam de certa forma disponíveis desde a metade dos anos 60 em diante. Certas barreiras educacionais e profissionais para que a prisão doméstica não fosse o único destino reservado a nós até já tinham começado a afrouxar um pouco antes. Não que o fato de existirem tornasse essas condições objetivas acessíveis a todas, mas, mesmo que de forma desigual, elas já estavam lá. Restava uma tarefa ainda difícil de entender, construir e definir o que fazer a partir disso – e como incorporar tudo isso numa subjetividade nova e outra.

No pedaço que me  coube dessa confusão, acompanhar e jogar futebol constituiu uma das arenas livres para a experimentação da(s) identidade(s) possíveis.  Filha do privilégio, como Sócrates sempre afirmou que o era, porque, por exemplo, pude entrar na universidade pública, frequentei uma escola regida por inquietações democráticas da classe média intelectualizada de esquerda. E onde se falava e jogava muito futebol.

A escada que dava acesso às salas de aula vivia cheia de adolescentes, de todos os gêneros, lendo o Jornal da Tarde – o melhor noticiário de esportes, à época.  A quadra poliesportiva, chão de concreto, vivia cheia de gente jogando futebol no recreio. Os meninos dominavam, mas algumas meninas mais habilidosas entravam, por vezes. E havia, claro, o campeonato de futebol feminino quando a quadra era nossa e todas as classes competiam.

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014 verde

SÓCRATES

Um evento como a Copa do Mundo provoca inúmeros impactos ambientais que deveriam estar entre as nossas maiores preocupações para 2014. Certamente teremos um aumento do tráfego de veículos nas cidades, maior suprimento de energia e água para os estádios e centros de imprensa, aumento da quantidade de lixo e da emissão de gás carbônico na atmosfera. Em transporte temos de diminuir o número de veículos que circulam diariamente e substituí-los por ônibus, metrôs e trens. Aqui temos o primeiro grande gargalo em nossa infraestrutura, já que o tempo e os recursos de que dispomos são ínfimos e estão dirigidos para a construção dos estádios.

Apesar de as discussões acerca do tema estarem entre as prioridades das cidades-sede, percebemos que somente algumas terão alguma melhora no sistema e, ainda assim, limitadas ao extremo e, por consequência, impedidas de atingir plenamente seus objetivos.

Como transportar os milhares de jornalistas e turistas que aqui estarão para acompanhar o Mundial é uma equação sem solução até este momento, mesmo em cidades que possuem mais linhas de metrô e trens como São Paulo e Rio de Janeiro. Essas se encontram no limite de sua capacidade e muito pouco se poderá fazer até 2014. Sobram ônibus cujos corredores e capacidade estão aquém das necessidades para eventos desse porte, além de serem antigos e poluentes. Isso sem contar com a frota extremamente inchada de veículos de passeio, que inviabiliza facilidades de locomoção dos coletivos. Até com minivans e táxis teremos problemas, pois os temos em número insuficiente para a demanda. Um verdadeiro colapso é o que se apresenta e, pior, ao contrário do que se espera, com aumento de emissão de gases de efeito estufa (será que pelo menos trocarão os filtros dos ônibus?).

O abastecimento de água e de energia nos estádios e centros de imprensa tem sido motivo de poucas discussões, como se fosse tema secundário. Pelo contrário, é fundamental para se evitarem desperdícios e emissão de gás e fuligem no caso de utilização de diesel para viabilizar a transmissão do evento. Como quase todos os estádios começaram suas obras, nada mais poderemos fazer além daquilo que foi planejado. Alguns terão plataformas de captação de calor para a geração de energia, mas me parece que não houve preocupação (nem no Nordeste) com a captação de água. Para consumo humano e cuidados com os gramados do campo e com o entorno (caso exista algum estádio sem excesso de concreto). Para esse fim, a captação da água da chuva seria bastante interessante e correta, particularmente onde não houver lençol freático.

Lixo! Será que algum dos que possuem poder de decisão para o mundial pensou em como tratar e manipular o lixo produzido? Acredito que não. Esse tipo de material, na cabeça dos que se preocupam com futebol, é apenas um detalhe insignificante, com o qual não caberia a eles se preocuparem, e sim o poder público. Assim como todos os quesitos acima. Isto é, faço um evento gigantesco e nunca terei de ficar absorvido com as suas consequências. Por exemplo, será que eles já se preocuparam com detalhes da construção do centro de imprensa, com o tipo de material que será utilizado e para onde tudo aquilo vai após a sua utilização? Inclusive os cabos? Quilômetros devem ser usados e, certamente, para algum lugar irão. Serão reutilizados? Onde? Espero que não mofem em algum lugar, como os aparelhos de ar-condicionado do Pan-Americano do Rio, em 2007, que foram comprados em excesso e abandonados em qualquer lugar, até não servirem para mais nada.

Essas acima são algumas questões que por certo estão longe da lista de prioridades do tal comitê organizador, que de tão organizado teve de mudar (?) seu comando nos últimos dias. Imaginei que ele deveria ser dirigido por gente do Estado brasileiro, que coordenasse as inúmeras funções exercidas por diferentes fontes para endereçá-las ao mesmo ponto comum às vésperas do campeonato de futebol. Mas não: seu organograma passa ao largo do poder público e trata tudo como propriedade privada, sem compromisso algum com o povo brasileiro, que, no fim, é quem está bancando a farra toda. Farra essa que pode jogar por terra todas as conquistas da última década, por absoluto distanciamento dos interesses nacionais. Uma inconsequência sem limites das instituições que delas deveriam cuidar.

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Por uma política de Estado

Socrates

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O futuro ministro dos Esportes deveria fugir dos eventos sociais e dos bajuladores, sempre à espreita. Eu começaria por limitar os mandatos esportivos dos dirigentes

Há alguns anos coloca-se uma boa soma de recursos nas mãos dos nossos administradores esportivos para ações indefinidas, mas percebemos pouquíssimos resultados práticos. Precisamos mesmo é de movimentos que nos ofereçam a perspectiva dos objetivos a serem alcançados.

Não interessa, em uma política de Estado, o resultado esportivo em si, discurso repetitivo de tantos que falam em esporte principalmente às vésperas de recebermos uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Importa, isso sim, o quanto de mobilização está sendo processado na sociedade. Só a partir daí é que poderemos entender uma maior valorização do esporte competitivo.

Não dá para imaginar, e isso é histórico, boas representações nacionais sem grandes atletas. E de onde virão esses atletas? Virão de uma estrutura que permita, estimule e dê acesso à prática desportiva a todos. Dessa multidão sairão os mais bem-dotados, mas isso nem de longe é feito ou sequer pensado. O que importa é ter os recursos na mão para utilizá-los de acordo com interesses pontuais ou menores.

Sempre que há oportunidade, como agora, de investimentos maciços nessa área, inclusive com extraordinária renúncia fiscal da União, os mesmos eternos administradores esportivos tentam se aproximar mais e mais do governo. É muito mais frequente vermos nosso ministro dos Esportes cercado por eles. Será que é tão importante tal vizinhança? Não creio. Até porque eles jamais se interessaram pelo esporte em si. Querem ganhos pra sua gente, isso sim.

No futebol, por exemplo. Diga-me uma única iniciativa da Confederação que tivesse como objetivo a propagação da prática desse esporte. Uma única que estimulasse a formação intelectual dos nossos jogadores. Nenhuma! Por tudo isso, eu gostaria de lembrar ao futuro ministro, seja ele quem for e caso a pasta seja preservada, que ele deverá ter cuidado com quem anda. Que deverá estar atento à formatação de um projeto capaz de atender aos interesses do País- e não à fome de poucos.

Quando a gente adquire certa projeção, por conquista ou indicação, atrai toda sorte de interessados. Alguns vêm atrás de uma pequena quantia de dinheiro para a subsistência imediata e outros querem emprego, mas a maioria quer mesmo é explorá-lo de todas as maneiras possíveis. Raramente se aproximam pessoas do bem que buscam te auxiliar em alguma dificuldade.

Reconhecer quem é quem no meio da multidão nem sempre é fácil. No caso dos últimos ministros, porém, está claro com quem eles se relacionaram. Basta buscar nos anais do Congresso Nacional, de onde geralmente são egressos, o resultado das CPIs que investigaram nosso esporte há muitos anos, as quais, por sinal, quase nenhum resultado provocaram, pois nada se fez para limitar as ações dos mandatários ou ao menos responsabilizá-los pelo resultado de suas gestões.

Os ministros podem argumentar que esses contatos são importantes por culpa do cargo ocupado por essas pessoas,- mas eu gostaria de saber qual é o objetivo dessa proximidade. Que eu saiba não se discute algo que seja relacionado com o futuro do nosso esporte.

No mais das vezes, é oferecido aos ministros comendas de parco valor e convites para acompanhá-los em passeios nas diversas competições que ocorrem pelo mundo; como para o Pan-Americano ou alguma capital sul-americana nas eliminatórias para a Copa do Mundo, das quais felizmente escaparemos nos próximos anos. É muito pouco.

Ministro, não se deixe envolver por essa gente. Você terá coisas mais importantes a fazer. O trabalho que existe pela frente para que possamos um dia sonhar com algo estabelecido e que dê resultados concretos – do ponto de vista social e esportivo – é longo e difícil. Não dá pra você ficar perdendo tempo com eventos sociais que não levam a lugar algum e não oferecem nenhum ganho em relação ao que todos esperamos. Existem pessoas, grupos e organizações com propostas muito mais interessantes. Basta abrir a agenda a quem quer um país melhor. E não a esses aí.

O que se necessita é, antes de tudo, criar uma nova situação em que os mandatos esportivos, como todos os outros, sejam limitados a prazos bem definidos, além de aumentar o eleitorado que determinará quem nos comandará e principalmente uma ação concreta do Estado brasileiro no encaminhamento das questões esportivas.

Em suma, o que se deseja é uma política de Estado, não de governos. Será que isso é tão difícil assim? Ou não há interesse? Com a palavra, os nossos novos representantes.

 

 

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