Arquivo da tag: Grécia

Democracia ou catástrofe

A crise expõe o dilema crucial da civilização ocidental, que é tanto econômico quanto político.

O que se passa na Grécia importa não só por ter sérias consequências para o mercado financeiro e a economia mundial, mas também por expor a crise da democracia representativa de forma mais clara do que ainda se observa em outros países. As massas estarem furiosas com o governo seria o de menos, apenas a rotina da alternância no poder. O problema é terem se enfurecido com o próprio sistema, independentemente de quem o administre.

 De certa maneira, querem derrubar o regime, mas não o governo. Revoltam-se contra as exigências do capitalismo e da troika União Européia – FMI – Banco Central Europeu que o representa, mas não particularmente contra a gestão do Partido Socialista de Giorgios Papandreou. Apesar da repressão, a renúncia do governo não parece ser a prioridade do movimento. A percepção de muitos manifestantes é de que a alternativa dentro do sistema, os conservadores, seria pior e não se consegue articular outra opção fora dele.

 Não só os analistas integrados à ideologia dominante estão confusos. No site WSWS, o trotskista alemão Peter Schwarcz lamenta: “Passamos quase uma hora (na Praça Syntagma, em Atenas) tentando achar um responsável que nos falasse sobre as metas e o caráter do movimento, sem sucesso”. Ao insistir no “leve-me ao seu líder”, conheceu o “Centro de Imprensa” do site real-democracy. gr, mas este se limitava a registrar as discussões e decisões da “Assembleia Popular” e do “Comitê de Organização”. E até os membros deste – que mudam diariamente, podem ser 50 pessoas hoje e 500 amanhã – só podiam falar em seu próprio nome, não pelo movimento. Continuar lendo

Anúncios

Na União Europeia, a indignação fermenta

Gianni Carta

A crise europeia, de enigmático desfecho, encontra análises díspares. Em Bruxelas, Daniel Cohn-Bendit, o lendário líder estudantil de maio de 1968 sob o nome de guerra Dany le Rouge, hoje deputado dos Verdes no Parlamento Europeu, sustenta que a crise, provocada pelo neoliberalismo desenfreado, impõe “a ascensão política da União Europeia”. Para Cohn-Bendit, hoje com 66 anos e sempre objetivo na oratória, é preciso criar os Estados Unidos da Europa para lidar com crises como a atual. Ele vê luz no final do túnel? “Não sabemos quanto tempo esta crise vai durar, mas a Europa já atravessou guerras, confrontos, tantas coisas… Sim, vamos sobreviver a mais essa.”

Em um café em Paris, Katia Delcenserie, professora de francês de 38 anos, é mais pessimista. “Eu queria uma Europa mais humana, como aquela de Goethe, que viajava para a Itália em busca de cultura.” E, no entanto, emenda Delcenserie, “temos uma Europa comercial, dominada por bancos que são um pouco como o diabo”. Segundo a professora, é preciso instilar um maior sentimento de europeidade nas jovens gerações. “Mas as escolas francesas não oferecem cursos sobre a UE, e isso é uma pena.”

Mureike Kleine, cientista política do European Institute da London School- of Economics, atualmente a escrever um livro sobre governança informal na Uniao Europeia, acredita numa “mescla de regras formais e informais” para governar a UE. No entanto, argumenta Kleine, “para que haja flexibilidade, são necessárias regras formais claras”. Ela cita o exemplo de uma ausência de mecanismos para resolver uma crise financeira no seio da UE. A disciplina fiscal, estabelecida pelo pacto de estabilidade e crescimento, limita a 3% o teto para déficits anuais em relação ao Produto Interno Bruto. E basta. A Zona do Euro, portanto, sempre esteve vulnerável a uma crise financeira. Kleine parece acreditar no progresso da UE, mas pinta um futuro negro. “Estamos vendo apenas as primeiras repercussões da crise financeira. Daqui em diante, elas se agravarão.”

  Continuar lendo