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Futebol, kichute e galinhada

Luiz Guilherme Piva

Laranja lima debaixo da árvore. Cedinho, a relva molha os pés e a bola. Sol de domingo na horizontal. Bostas de vaca aqui e ali. Secas, tiradas com chutes. Água de bica na mangueira do casebre, do qual saem cheiro de café e uma parte da família amontoada na bicicleta, cuja trilha demarca a linha do meio-campo. Cordão do calção desamarrado, meião, bate-bola pro aquecimento, mosquitinhos nas perebinhas do joelho, cruzamentos pro goleiro se alongar.

O time da casa chega aos pedacinhos. Uns magrelos vindos do capinzal com kichute na mão. Uns grandes, de bicicleta, descalços. Um a cavalo. Dois de carroça. Mais uns dez de caminhonete.  Tem sarará, negão, branquelo, pardo, gordo, espigado, índio. A camisa velha, amarela e uma outra cor já apagada. Shorts, bermudas, calças dobradas até o joelho. Continuar lendo

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A Copa de 2014 e a (i) mobilidade urbana

Passada a Copa da África do Sul, começamos a nos preparar para receber o próximo mega-evento do esporte mundial. E uma das grandes preocupações é com a mobilidade urbana (tendo em vista que as grandes metrópoles do mundo começam a parar, seria preferível falar de imobilidade !)

E, ao que parece, o problema da mobilidade ficará restrito a abrir vias para a maior circulação de automóveis. Ou seja, não pensamos em proporcionar condições para que as pessoas circulem com qualidade e tranqüilidade mas apenas para um número restrito delas: as proprietárias de automóveis.

Declarações oficiais adiantam, neste sentido, que obras viárias terão prioridade – isto quer dizer, como todos sabemos, abrir buracos, levantar pontes, desimpedir cruzamentos – de forma que os tais automóveis possam circular melhor.

Além de não aprendermos com os países que já passaram – e ainda passam – por estes problemas, também não aprendemos com nossa própria experiência.

E nossa experiência mostra que priorizar o transporte individual já não significa nem mesmo um paliativo. Se antes a construção de trincheiras e de viadutos resolvia o problema por algum tempo, hoje nem isso acontece mais. E por um motivo simples: o número de automóveis não pára de crescer, ainda mais em momentos de desenvolvimento econômico.

Um exemplo recente de Belo Horizonte é a chamada Linha Verde, recentemente inaugurada. Uma série de viadutos foi construída com o objetivo de, ao se evitar os cruzamentos, reduzir o tempo gasto nos trajetos. Mas hoje continua-se gastando o mesmo tempo que se gastava antes da construção para percorrer trajetos iguais.

Mesmo que esta obra – e tantas outras – tivesse “dado certo”, será que podemos gastar tantos recursos para atender uma parcela tão pequena da população, aquela que utiliza automóveis ?

Quanto poderia ter sido investido em um melhor transporte coletivo, em pistas exclusivas para ônibus, em metrô, em ciclovias ?

O transporte coletivo da cidade continua ruim e não podemos utilizá-lo. Eu mesmo, que moro a 10 minutos do trabalho, sou obrigado a ir de automóvel.

Mas a população aplaude quando o governo anuncia novas obras ! Próximo à minha casa, uma delas já começou. Um viaduto para evitar o cruzamento entre duas avenidas, próximo ao Mineirão, que abrigará jogos da Copa de 2014. Primeiro precisamos conviver com todos os transtornos que uma obra desta magnitude causa: deslocamento de enormes quantidades de terra, poeira, poluição sonora. Depois veremos o mesmo resultado com uma “trincheira” aberta na mesma avenida, alguns poucos metros à frente e há alguns anos: em breve o grande número de automóveis voltará a provocar lentidão e engarrafamento no trânsito.

E o que se lê na imprensa são aplausos sem quaisquer questionamentos. Nas ruas a mesma coisa. É como se não existissem alternativas. E as construtoras continuam ganhando muito dinheiro. O mesmo com as montadoras de automóveis. Enquanto isso fica cada vez mais difícil locomover-se pela cidade, inclusive em automóveis.

Temos uma chance perfeita para pensarmos e agirmos diferente: estamos com o problema batendo à nossa porta e temos decisões a tomar. Por que não pressionamos as autoridades por um transporte coletivo decente, por investir os recursos – todos estamos vendo que os recursos existem ! – em alternativas menos poluentes, mais tranqüilas e que, acima de tudo, privilegiem a mobilidade dos cidadãos, não das máquinas.

As alternativas existem: basta olharmos para as cidades que já passaram por este problema, especialmente fora do Brasil.

Adair Carvalhais Júnior