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“Os mais pobres precisam de dinheiro para comprar alimentos”

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http://www.cartacapital.com.br/blogs/cartas-da-esplanada/para-ter-seguranca-alimentar-o-mais-importante-e-garantir-acesso-aos-alimentos-9582.html

O Brasil tem hoje 3,4 milhões de cidadãos em situação de insegurança alimentar, o equivalente a 1,7% da população nacional. Tais números colocam o País na lista de nações que superaram o problema da fome, segundo o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), divulgado na terça-feira 16.

Na última década, 15,6 milhões de brasileiros abandonaram a condição de subalimentação, um recuo de 82,1%. Não por acaso, o Brasil tornou-se uma referência mundial no combate à fome, diz Alan Bojanic, representante da FAO no País. “Para ter segurança alimentar, o mais importante é garantir acesso aos alimentos. Os mais pobres precisam de dinheiro para comprá-los, e os programas de transferência de renda implantados na última década tiveram grande êxito nessa tarefa.” Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida a CartaCapital.

CartaCapital: O que explica essa redução tão forte do número de subalimentados no Brasil?

Alan Bojanic: Essa redução teve uma repercussão global muito forte, e ajudou a puxar o bom desempenho da América Latina. O Brasil assumiu o compromisso de erradicar a fome, e isso se traduziu em políticas sociais. Para ter segurança alimentar, o mais importante é garantir acesso aos alimentos. Os mais pobres precisam de dinheiro para comprá-los, e os programas de transferência de renda implantados na última década tiveram grande êxito nessa tarefa. Também destacamos o êxito dos programas de alimentação escolar. As crianças têm a possibilidade de ter ao menos três refeições por dia. O Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar ajudou a fortalecer os pequenos produtores. Agora, eles têm condições de gerar renda e produzir alimentos para a população. Criou-se um circuito virtuoso para assegurar a segurança alimentar da população, sobretudo dos mais pobres.

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CC: O relatório da FAO destaca que o Brasil sempre foi um grande produtor de alimentos, mas o drama da fome persistia.

AB: A segurança alimentar não tem relação apenas com a disponibilidade dos alimentos, mas também com o acesso. Os mais pobres tinham uma dieta muito pobre, com baixa quantidade de calorias, de proteínas. Precisamos ter ações em três campos: a produção de alimentos, o acesso a eles e o uso que se faz deles.

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CC: A FAO utilizou uma nova metodologia para calcular o seu índice de subalimentação. Qual foi a maior mudança?

AB: Sempre usamos como base a Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE, que não contemplava o enorme contingente de pessoas que se alimentam fora de casa, na escola, no trabalho, nos restaurantes populares. Essa é uma variável fundamental que passou a ser agregada no estudo, não só no caso do Brasil, mas em todos os países monitorados pela FAO. Só de considerar o número de crianças que têm acesso a alimentos nas escolas (43 milhões de estudantes), isso teve um impacto enorme na correção dos números do Brasil.

CC: Por que a FAO não costuma divulgar os porcentuais exatos dos países que estão abaixo de 5% de prevalência da subalimentação? É uma questão de confiabilidade estatística?

AB: Não, é uma questão conceitual. Na verdade, quando um país fica abaixo desse patamar de 5%, entendemos que ele superou a fome estrutural. Isso significa que a fome não é mais um problema endêmico no país, embora possam existir núcleos duros de famintos, que demandam políticas específicas.

CC: Qual é o maior desafio do Brasil daqui para a frente?

AB: Primeiro, precisamos focalizar as políticas públicas nos grupos mais vulneráveis. Ainda temos núcleos duros de pessoas com subalimentação, sobretudo na Amazônia, com os povos ribeirinhos, os indígenas, as comunidades quilombolas. Precisamos de políticas específicas, de maior precisão, para alcançar essas populações. Outro desafio é melhorar a qualidade da nutrição. A população pode ter uma alimentação com elevado número de calorias, mas pobre de proteínas, minerais e vitaminas.

CC: Sabe-se que o indicador da FAO leva em conta o número adequado de calorias para cada pessoa, de acordo com o gênero e a faixa etária dos diferentes segmentos sociais. Ele também é capaz de revelar quão equilibrada é a dieta de cada povo?

AB: Não, porque muitos países não têm essa informação e nós precisamos ter um indicador que possa servir de comparação entre todas as nações monitoradas. De fato, precisamos avançar nessa questão. Até porque um dos temas que mais nos preocupam é o rápido crescimento dos indicadores de obesidade e sobrepeso. Um consumo excessivo de calorias, associado à vida sedentária, é um grave problema a impor desafios também aos países emergentes. Além disso, podemos avançar mais no estímulo aos pequenos produtores. O Brasil é um exemplo em termos de políticas para agricultura familiar, mas sempre há espaço para aperfeiçoá-las.

CC: Atualmente, estima-se que a agricultura familiar seja responsável por 70% dos alimentos consumidos no Brasil…

AB: Exatamente. Os grandes produtores estão voltados para a exportação de commodities, como soja, milho e algodão. Esse último representa uma cultura importante, gera renda, mas não alimenta ninguém. São os pequenos produtores que garantem o abastecimento da população e precisam de mais estímulo. É importante destacar que o mundo avançou muito. Em apenas uma década, conseguimos retirar 200 milhões de pessoas da fome, quase a população total do Brasil. Mesmo com a crise internacional, com a alta nos preços dos alimentos, estamos no caminho correto. Mas ainda temos 800 milhões de famintos no mundo e não podemos deixar de perseguir o objetivo de erradicar a fome em todo o planeta.

 

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Não desperdice, não exagere

“(…) Tanto no mundo rico quanto no pobre, uma proporção impressionante – entre 30% e 50% de todo alimento produzido apodrece sem ser consumido. De acordo com Josef Schmidhuber, da FAO, na África o desperdício pós-colheita explica em grande parte por que muitos pequenos agricultores são compradores de alimentos, mesmo produzindo o suficiente para alimentar suas famílias.

Nos países pobres, a maior parte dos alimentos é desperdiçada na fazenda ou nas proximidades. Ratos, camundongos e gafanhotos comem as colheitas nos campos ou nos armazéns. Leite e vegetais estragam durante o transporte. Isso deve ser considerado mais como perda do que desperdício.

Kanayou Nwanze, chefe do Fundo Internacional para Desenvolvimento Agrícola, calcula que essas perdas possam ser reduzidas pela metade. Seria o equivalente a um aumento na produção de 15% a 20% (…).

Os países ricos desperdiçam quase a mesma quantidade de alimento que os pobres, até a metade do que é produzido, mas de formas bastante diferentes. (nos EUA e na Grã-Bretanha) um quarto dos alimentos nos mercados vai direto para a lata de lixo ou é descartado pelas lojas e pelos restaurantes. As saladas ocupam o topo da lista, quase metade das hortaliças é jogada fora. Um terço de todo o pão, um quarto das frutas e um quinto dos vegetais – são todos descartados sem ser consumidos. Nos EUA, esse desperdício somou 43 milhões de toneladas de alimentos em 1997, e na Grã-Bretanha, 4 milhões de toneladas em 2006.

Se todos os países ricos desperdiçarem alimentos nas mesmas taxas que a Grã-Bretanha e os EUA, quase 100 quilos por pessoa por ano, a perda total chegará a 100 milhões de toneladas de alimentos anualmente, o equivalente a um terço de toda a oferta mundial de carne – uma quantidade surpreendente. Se o desperdício do Ocidente puder se reduzido à metade e o alimento for distribuído para aqueles que precisam, o problema de alimentar 9 bilhões de pessoas desapareceria.

The Economist – 23/03/2011

Suplemento especial da revista Carta Capital nº 638 de 23/03/2011