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As quatro irmãs

Publciado em: http://apublica.org/2014/06/as-quatro-irmas/

por Adriano Belisário em 30 junho, 2014

Negócios familiares, proximidade com governos, financiamento de campanhas e diversificação de atividades – da telefonia ao setor armamentício – compõem a história das gigantes Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez

Apesar de mais conhecidas no Brasil por sua atuação no setor de construção civil, as chamadas “quatro irmãs” – Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – hoje atuam em diversas outras atividades. As empreiteiras respondem apenas por parte dos lucros destes grupos econômicos que atuam em todos os continentes, com foco nos mercados da África, América Latina e Ásia. Juntas, possuem empreendimentos que vão do agronegócio à moda, passando pela petroquímica, setor armamentício, telefonia e operação de concessões diversas.

Os controladores, porém, permanecem os mesmos e os maiores ganhos ficam com as famílias que comandam as empresas. “O controle de base familiar é uma característica da formação do capital monopolista dos grupos econômicos constituídos no Brasil. Embora isso não impeça a abertura de capital, esta é feita de modo a preservar sempre o controle acionário dos ativos mais rentáveis pelas famílias controladoras. Isso confere à estrutura societária desses grupos um formato piramidal, em que um controlador último controla toda uma cadeia de empresas”, analisa o cientista político da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) João Roberto, que coordena o Instituto Mais Democracia.

Além do controle familiar, outro traço comum é o fato de serem grandes financiadoras de campanhas. Entre as eleições de 2002 e 2012, juntas, as quatro empresas investiram mais de R$ 479 milhões em diversos comitês partidários e candidaturas pelo Brasil. No Estado do Rio de Janeiro, o PMDB é de longe o partido mais beneficiado, com R$ 6,27 milhões, mais que a soma dos quatro seguintes: PT, PSDB, PV e DEM. Porém os repasses podem ser ainda maiores em anos não-eleitorais. Em 2013, por exemplo, somente a Odebrecht repassou R$ 11 milhões dos R$ 17 milhões arrecadados pelo PMDB. Veja mais no infográfico:

Doações Grupo Odebrecht

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Doações Grupo Camargo Corrêa

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Doações Grupo Andrade Gutierrez

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Doações Grupo OAS

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Infografia: Bruno Fonseca

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OS SETE MITOS DAS ELEIÇÕES 2014

por José Roberto Toledo, Daniel Bramatti, Daniel Trielli, Diego Rabatone, Lucas de Abreu Maia e Rodrigo Burgarelli.

Publicado em: http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/outras-palavras/contra-histeria-os-7-mitos-da-eleicao/

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MITO 1: FOI O NORDESTE QUE ELEGEU DILMA
É claro que o desempenho de Dilma no Nordeste foi crucial para a sua vitória – lá, ela teve 20 milhões de votos no segundo turno, o que correspondeu 72% do total de válidos. Mas a presidente reeleita obteve um apoio razoável em todas as cinco regiões. Seu menor porcentual de votos válidos foi no Sul, onde ela teve o apoio de 41% dos eleitores que escolheram um candidato.Na verdade, a impressão de que o Nordeste sozinho é o grande responsável pela reeleição de Dilma é fortalecida quando se vê o mapa eleitoral de cada Estado pintado por quem teve o maior porcentual de votos ali. Nesse mapa, metade do Brasil aparece pintado de azul, como se ela tivesse ido em direção totalmente oposta à outra metade, vermelha. O deputado estadual eleito Coronel Telhada (PSDB-SP) chegou a defender a independência do Sul e do Sudeste por causa disso. Mas, na verdade, dos dez Estados em que Dilma obteve menor votação, apenas três estão nessas regiões: SC, SP e PR. Todos os outros estão ou no Norte ou no Centro-Oeste. Visualmente, é possível ver como o apoio a Dilma se espalha pelo Brasil pelo gráfico de relevo ao lado – nenhuma das duas maiores “montanhas” que representam o número absoluto de votos está no Nordeste.
Eleições1
 MITO 2: PALANQUE ESTADUAL INFLUENCIA ELEITORES
Pesquisas e resultados eleitorais voltaram a demonstrar que a maioria dos eleitores não faz conexão entre o voto para presidente e para governador. Apesar da prática tradicional dos presidenciáveis de buscar “palanques fortes” nos Estados – alianças com candidatos a governador -, não há evidências de que isso renda votos.Apoiado por praticamente toda a cúpula do PMDB do Rio de Janeiro, o tucano Aécio Neves buscou popularizar a chamada “chapa Aezão”, na esperança de que os eleitores de Luiz Fernando Pezão votassem também nele. Os mapas de votação de ambos, porém, mostram que não houve sintonia eleitoral.Pesquisa Ibope divulgada pouco antes do 2º turno mostrou que, dos eleitores de Pezão, seis em cada dez pretendiam votar em Dilma Rousseff. Marcelo Crivella, adversário do peemedebista, fez campanha explícita para Dilma – mas isso não impediu que cerca de 40% de seus eleitores manifestassem intenção de votar em Aécio.

 

Eleições2

 MITO 3: PESQUISAS ERRAM RESULTADO DA URNA
 Embora alguns insistam que as pesquisas de intenção de voto consistentemente erram o resultado das urnas, não é o que mostram os dados – tanto os das eleições de domingo quanto os e históricos. A vitória de Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência foi prevista pelo Ibope, que atribuía a ela 53% da preferência do eleitorado. Dilma recebeu 52% dos votos válidos, portanto dentro da margem de erro da pesquisa, de dois pontos porcentuais.O Datafolha também atribuía favoritismo à petista, embora ela estivesse no limite do empate técnico com Aécio Neves (PSDB). Ambos os institutos descreveram, por meio dos números, a campanha do 2.º turno: Aécio começa à frente, carregado pelo embalo do 1o turno, em que teve votação superior ao esperado. Dilma se recupera na última semana, com uma insuficiente reação de Aécio na véspera do pleito. Para os institutos, os números exatos importam menos que o movimento descrito pelas curvas de intenção de voto de cada candidato. Sem elas, é impossível analisar qualquer campanha.Desde 2002, a diferença média da sondagem de véspera do dia da eleição de Ibope e Datafolha para o resultado do 2.º turno é de um ponto porcentual – portanto dentro da margem de erro. Assim, os institutos acertaram os resultados das eleições em todos os anos, mesmo em 2014, na disputa mais acirrada da história.

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Carta para minha filha

Filha,

Em 1998, as universidades federais paralisaram suas atividades por um longo tempo. No caso da UFMG, a greve durou cerca de 4 meses. O vestibular teve que ser adiado, todo o calendário escolar foi alterado e muitos transtornos foram causados aos alunos, aos professores e a toda a comunidade. Você, naquela época, era ainda bebê, e por isto te conto, agora, o que aconteceu.

Na realidade, filha, esta greve significou o auge de um conflito entre as Universidades e o Governo Federal. Um conflito que teve início com o governo Collor e que se agravou com os governos FHC. Naquele ano, tivemos a certeza de que o governo FHC tinha um projeto para a educação superior que era o oposto daquele que os professores e funcionários defendiam. Um projeto elitista que serviria apenas a uma pequena parcela da população.

Este projeto consistia em diminuir drasticamente os recursos para a educação superior. A justificativa era de que tais recursos deveriam ser aplicados no ensino básico – o que nunca foi feito. Ao mesmo tempo, transformava os funcionários públicos em vilões do déficit da previdência e com isso propunha uma reforma que, amedrontando os professores com a perda de direitos conquistados em toda uma vida de trabalho, obrigou muitos a se aposentarem precocemente. Em algumas unidades da UFMG a perda de docentes chegou a 50%.

No lugar de doutores e pesquisadores, as universidades tiveram que contratar professores substitutos, que ganhavam pouco mais que o salário mínimo com reduzidíssimos direitos trabalhistas. Além disso, os contratos eram temporários, o que criava uma grande rotatividade e impedia trabalhos de longo prazo desses profissionais. Ao mesmo tempo em que diminuía as verbas para as Universidades públicas, o governo FHC incentivava a abertura de escolas de ensino superior privadas.

Mas a partir da eleição de Lula e depois, de Dilma, passamos a acreditar na possibilidade de construirmos uma outra Universidade. O que vivemos na UFMG nos governos Lula e Dilma, filha, foi a tentativa de reconstruir o que foi destruído e de expandir a Universidade de forma a torná-la realmente pública: a retomada da contratação de professores e funcionários com a reestruturação de suas carreiras e o investimento na qualificação dos mesmos são medidas já implementadas. Além disto os governos Lula e Dilma promoveram a recomposição de nossos salários, o aumento de vagas nas universidades públicas e a construção de novas universidades para que mais brasileiros pudessem fazer um curso superior sem se submeter às mensalidades escorchantes das faculdades privadas. É claro que nem tudo está perfeito, mas, ao contrário dos constantes enfrentamentos com o governo a que éramos obrigados, encontramos a possibilidade de diálogo e um projeto de Universidade realmente pública.

É importante que você compreenda, minha querida, que vivemos nos anos do governo FHC a tentativa de destruição de um patrimônio construído com muito esforço por gerações de professores, pesquisadores, funcionários e alunos. As greves que fizemos foram apenas uma parte da resistência a este projeto.

Você, filha, que agora está perto de ingressar numa universidade pública, precisa reconhecer como a realidade do ensino superior foi alterada. E se olhar para o lado verá um exemplo em seu irmão, que, através do programa Ciência sem Fronteiras, pôde, como milhares de alunos, estudar mais de um ano fora do país.

Nem tudo acontece por acaso, filha. Num país, especialmente, quase toda a nossa vida diária é afetada de uma forma ou de outra pelos esforços de quem tem mais poder que nós para administrar e governar. Não foram raras as vezes, durante os anos de governo do PSDB, em que nos sentimos de mãos e pés atados diante das dificuldades que passávamos e que víamos ao nosso redor.

Nos governos de Lula e Dilma vivenciamos um outro tempo, em que pudemos acreditar num país mais aberto, mais democrático, em que o povo estivesse cada vez mais representado. E numa Universidade que acolhesse também os filhos dos trabalhadores e não apenas uma elite. Vivemos um tempo de construção e de esperança, em que nos sentimos estimulados a trabalhar melhor e a fazer de nosso trabalho um caminho para uma sociedade mais justa.

Eu espero que você consiga ingressar na universidade no próximo ano, filha. Vendo seu esforço, é impossível desejar outra coisa. Mas saiba: este ingresso não será resultado do seu esforço apenas, apesar de haver aqueles que querem que pensemos assim. De fato, o ingresso de tantos outros adolescentes em universidades públicas foi possível porque, há doze anos, os esforços contundentes de destruição deste patrimônio pelos governos do PSDB foram interrompidos e uma nova proposta pôde nascer e tomar forma.

Hoje vemos um candidato a presidente tentando se apresentar com a marca da eficiência e da renovação. No entanto é preciso ficarmos bem atentos, minha filha. Este candidato compartilha das mesmas ideias daquele senhor que não deixou nenhuma saudade entre nós, professores e funcionários das universidades públicas. Este candidato, como o outro, também defende um mínimo de participação do Estado e a redução dos gastos governamentais. E com certeza desejará fazer mais e mais privatizações – não bastassem as que seu companheiro fez. Este candidato tentará transformar as universidades em um lugar para poucos estudarem. E cuidado quando ele começar a falar mal dos funcionários públicos: lembre-se que estará falando dos professores universitários, dos funcionários responsáveis por manter as universidades funcionando e dos médicos dos hospitais universitários, dentre tantos outros.

Hoje, filha, todos os que lutam por um país mais igualitário, com menos pobreza e mais acesso à saúde e à educação públicas estão apreensivos. Aquela década em que o senhor FHC governou o Brasil fez muito mal às universidades e àqueles que desejavam ter acesso ao ensino superior. Fez muito mal, também, aos mais carentes que precisam de políticas públicas para alcançarem uma vida melhor.

 Minha filha, não queremos voltar àquele tempo em que os horizontes apenas se fechavam. Queremos poder olhar para a frente e continuar acreditando que podemos melhorar ainda mais nosso país. Desta maneira creio que poderei contar aos meus netos uma história bem mais bonita, de um país que teve forças para se recusar a voltar ao passado.

Adair Carvalhais Júnior

Graduado em História e Direito. Mestre em Filosofia. Doutor em História.

Professor da Escola de Educação Básica e Profissional – Centro Pedagógico

Universidade Federal de Minas Gerais.