O fim da escravidão no Brasil e as arenas de 2014

Lúcio de Castro

Da noite para o dia milhares de pretos forros estavam fora das senzalas. Ao contrário do que a história oficial conta, foi muito mais do que uma simples penada da Princesa Isabel. Desembocavam naquela canetada real anos de lutas, revoluções e muito sangue, para desmentir aqueles que adoram desenhar o povo brasileiro como massa amorfa e sem fibra, frouxo. O que veio a seguir sabemos de cor. Não existia um projeto de integração dos escravos na sociedade. A inclusão passou distante do que as classes dominantes pensavam para a nação.

O historiador Luiz Antônio Simas diz que nada pode ser mais claro, incisivo e objetivo para descrever o que aconteceu no momento seguinte ao fim da escravidão do que o samba da minha Estação Primeira de Mangueira de 1984, com o cortante verso “livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”. Foi com os ex-cativos que começaram a se formar as favelas. E mais uma vez não existia projeto de inclusão para elas. Queimar, remover mandando pra bem longe e assassinar os filhos das senzalas foi o único projeto. Incentivar a imigração de brancos europeus foi a outra face desse projeto, que mais uma vez esquecia a inclusão dos menos favorecidos. Por trás do discurso de parcerias para o trabalho com imigrantes, existia o claro projeto que a classe dominante de então tinha de “higienizar” o país. Era assim que consideravam esse embranquecimento desejado. A imigração europeia era incentivada, terras garantidas. A africana? Tinha ficado para trás na escravidão. Negros só nos navios negreiros. Mais uma vez pergunta-se: qual era o projeto de inclusão para negros, pobres, mulatos, cafuzos no Brasil?

Novo Mineirão

Excluída dos salões principais, das decisões da nação, de qualquer ideia de cidadania e de qualquer projeto nacional, nossa gente precisou se reinventar. E poucas civilizações foram tão férteis, tão criativas e geniais nessa reinvenção da vida e do cotidiano. Na festa, nos rituais, na fé, nos jogos, brotou uma gente e uma nação peculiar, única. Criada na sombra da exclusão, no vácuo das decisões e atos dos homens no poder, essa civilização resultou em Pixinguinha, Garrincha, Pelé…Poderíamos ir tão além…São tantos gênios da raça, gerados na exclusão e no fio de vida que reiventaram. Foi nesse fio de vida, nesse caminho único e alternativo ao que era negado, que se inventou uma música que vai ficar através dos tempos. Foi assim que se reinventou um jogo criado pouco antes pelos ingleses, acrescentando pitadas geniais de ginga, malemolência e da capacidade de se ludibriar os mais fortes. Foi assim que por aqui se deu “aos pés astúcia de mão” como disse o poeta.

Chegamos aqui aos dias de hoje. Recuamos antes no tempo porque é preciso muitas vezes “conhecer o passado para entender o presente”, já dizia um outro. Tanto tempo depois, é possível verificar que pouca coisa mudou. A raia miúda segue excluída de todos os projetos. Será que é possível pensar o que está sendo feito nos estádios para a Copa de 2014 sem entender e refletir um pouco a história desse país? Será que é possível pensar nas “modernas arenas” belíssimas cujas maquetes inundam nossos meios de comunicação sem buscar lá atrás a lembrança da ausência de projeto de inclusão aos filhos de preto forro, que reinventaram também o modo de ver o jogo nas gerais e arquibancadas da vida?

Onde estão os menos favorecidos nesses projetos? Em que lugares sentarão nessas arenas? Será que é possível debatermos tanto isso sem entender que estamos apenas vendo a perpetuação de um projeto perverso de nação, a nação de alguns, que jamais incluiu os pretos, pobres, desdentados, geraldinos e arquibaldos? Naquele fio de vida, tinham reinventado o jogo por aqui, com suas danças, cantos e jeito de torcer. Agora o projeto lá de trás se aperfeiçoa e chega aos estádios, excluindo de vez a todos esses.

Gente muito boa, gente que admiro o trabalho, infelizmente ainda não estabeleceu esse link com nossa história e com o que está acontecendo. Acreditam que existirão lugares populares nas novas arenas, que por si só já nascem excludentes, como o velho Maraca, agora “arena” (!).

Que me mostrem onde nesse projeto estão contemplados os ferrados. Não direi mais uma palavra, que me mostrem. Ou será que como em todos os projetos desse país estarão excluídos? Com o agravante de que estão pagando desde já, com seus impostos, a conta da construção dos espaços que serão excluídos. Os ingênuos costumam sempre questionar o lamento com esse estado de coisas com o argumento da modernidade e do conforto. Sem entender que referendam a crença de que os povo e conforto são coisas incompatíveis. Se não for verdade, repito, que me mostrem onde estão contemplados nesses projetos e a quanto serão os lugares populares. Será mesmo que alguém acredita que eles existirão?

Dia desses, a resenha corria solta na primeira edição do nosso Bate-Bola. Falei da minha indignação com esse estado de coisas. Pouco tempo depois, o técnico Renê Simões entrou ao vivo. Pediu licença, com toda educação para entrar nessa discussão. Com toda educação, ressalte-se mais uma vez, e com todo direito de expressar sua opinião, entrou de sola. “Tem gente que se acostumou com o pouco Lá fora as arenas são de primeira qualidade, usadas até para reuniões de trabalho, de terno e gravata, almoço”, sentenciou, algo com palavras por aí. Refutei o professor, lamentando que gente do futebol pensasse assim. Argumentei que cada qual tem sua cultura e história. Na nossa, futebol era mais do que o rasteiro conceito de entretenimento que querem nos empurrar goela abaixo de qualquer forma, transformando pervesamente torcedor em consumidor. Lembrei que, por causa da nossa história de exclusão dos projetos da nação, tínhamos reiventado a vida e o jogo, transformado em ritual, profissão de fé, parte de nossa cultura, manifestação de arte. Falei um pouco sobre o que tratei aí acima, sobre o projeto de exclusão que vem de longe e só se repete, e falamos democraticamente nossas diferentes convições e ideias sobre nosso país.

O que fica disso tudo é ao menos as coisas vão ficando mais claras. De campanha para acabar com o palavrão no estádio a dimuição da capacidade com “modernidade”, passando pelo fim dos lugares populares, vai se impondo o mesmo projeto que se seguiu ao fim da escravidão no país: a absoluta exclusão dos mais pobres na festa deles. A intenção de que estádios sejam lugares assépticos e frios vai saindo do papel no Maracanã que sangra, nas arenas que se erguem no meio da Amazônia ou no nordeste.

 Para que o jogo da tv seja um espetáculo sem banguelas na plateia e sem palavrão. Em curso o projeto chegou mesmo antes dos shopping centers do futebol estarem prontos. Belíssimo trabalho publicado na semana que passou no Jornal da Tarde, em cima de estudo do IBGE é demolidor e definitivo sobre essa “higienização” e tal projeto de exclusão: de 2004 para cá, num quadro de inflação de 47,9%, os ingressos no Brasil subiram 152%. Isso mesmo, 152%, três vezes mais do que a inflação. O Corinthians, dos maloqueiros e dos desdentados e desvalidos, agora também do amigo do Rei, lidera o projeto de exclusão, sendo o clube que mais aumentou o preços dos ingressos para seus jogos no período.

Para completar a história que se repete como farsa e fechar o ciclo do projeto de exclusão como o de outrora, traremos também para 2014 o público que vai embranquecer as arquibancadas. Orgulhosos, alguns ingênuos irão elogiar a beleza de nossas arenas. Sem entender que elas apenas completam esse projeto que se desenhou muito antes, lá atrás. Desde aquele país que jamais pensou em inclusão para os que deixavam a senzala. O azar desses que riem agora da vitória parcial que mais uma vez vão conquistando, é esquecerem que aprendemos sempre a reconstruir e reinventar a vida, no fio em que vamos nos equilibrando. Com nossas festas, rituais, fé, jogos e cantos. Que façam a festa deles. Que estejam nas arenas os consumidores, reunidos para reuniões de trabalho e almoços de terno e gravata. De alguma forma, nossos atabaques estarão soando e dando o tom de uma gente que mais uma vez irá se reinventar e fazer a sua festa.

Fonte

Uma resposta para “O fim da escravidão no Brasil e as arenas de 2014

  1. Maria do Carmo Caetano

    Esse texto ilustra e visualiza nitidamente e, sem desenhos, a verdadeira história do povo brasileiro. Parabéns!!!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s