Um intrincado faroeste

Com O Cangaceiro, o diretor Lima Barreto contornou o sucesso para se tornar personagem da própria tragédia

Orlando Margarido

 O CANGACEIRO aglutina como poucos, êxito, con­flito e mitificação. Sobre o primeiro elemento, o filme brasileiro de 1953 dirigido por Lima Barre­to permanece incontes­tável. Sucesso imediato no circuito casei­ro, ganhou prêmios internacionais, entre os quais o de gênero de aventura no Fes­tival de Cannes, rodou 80 países e fez a fa­ma do realizador. Quanto à natureza con­flituosa, esta se deu já na origem do proje­to no núcleo dos estúdios da Vera Cruz. A principio repelida pelo proprietário Fran­co Zampari, revelou-se produção compli­cada e dispendiosa, a ponto de ser aponta­da como a causa da falência da companhia cinematográfica. Resultou também em re­ceptividade crítica diversa, tendo Glauber Rocha como o mais conhecido opositor. De uma trajetória complexa e arriscada como essa espera-se, claro, o cotejo com a lenda. E foram muitas as geradas sobretu­do pelo temperamento do diretor, homem de virtudes histriônicas, como escreveu o crítico Paulo Emilio Sales Gomes. Uma no­va oportunidade de contextualizar o feito nos chega agora no lançamento da cópia restaurada em DVD pela Versátil, acom­panhado de extras providenciais.

 Um desses adendos, o documentário O Velho Guerreiro Não Morrerá – O Canga­ceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois, su­gere como tem sido tentador, nesse mais de meio século, falar mais do criador que da obra. A figura por trás das câmeras te­ria crescido em simetria oposta à do filme quase relegado ao esquecimento. Quatro em cada cinco paulistanos, número talvez exemplar de uma dessas lendas, entraram numa sala de cinema para conferir a pri­meira iniciativa ambiciosa a mostrar o can­gaço. A grife Vera Cruz se impunha com profissionais como o fotógrafo Chick Fow­le, e elenco de estrelas já conhecido, Alberto Ruschel à frente como o bom cangacei­ro Teodoro na disputa com o temido chefe de bando Galdino, interpretado por Milton Ribeiro. Em questão, o rapto da bela e se­dutora professora Olívia, papel de Marisa Prado, e motivo de ciúme da acompanhan­te do grupo, personagem de Vanja Orico. A atriz fez redobrar a fama da canção tema do filme, Olê Mulhé Rendeira, ao cantá-la em Cannes e na turnê no exterior.

 O caprichoso diretor chegou à Vera Cruz convidado por Alberto Cavalcanti, depois de realizar curtas como Painel (1951), Santuário (1952) e São Paulo em Festa (1954), todos incluídos no pacote. Queria escalar a si mesmo como protagonista, não bastas­se assinar o roteiro, transformado em diá­logos por Rachei de Queiroz. Foi a primeira vez, por exemplo, que se utilizou por aqui o storyboard, um esboço prévio das cenas, realizado por Carybé, artista argentino ra­dicado na Bahia. Hoje as 1,6 mil peças têm status de arte e um lote de 20 delas pode ser encontrado em leilão por 30 mil reais. O or­çamento estourava e as filmagens se esten­diam, a ponto de perder a participação de Dionísio Azevedo, substituído por Adoni­ran Barbosa. Lima Barreto emulava o wes­tern hollywoodiano a partir também de referências como os trabalhos dos mexica­nos Gabriel Figueroa e Emilio Fernandez. Seguia alheio a estranhezas como adotar cavalos quando os cangaceiros corriam a pé o sertão. Ou transformar em cenário a região da paulista Vargem Grande do Sul, vizinha à sua Casa Branca natal.

 Tais liberdades irritaram Glauber Ro­cha, que tratou o filme em artigo como drama convencional, primário na psico­logia, e uma fábula romântica de exalta­ção à terra, portanto, ao latifúndio, longe de entender o universo do cangaço. As crí­ticas não impediriam Barreto de inaugu­rar a vertente que seria chamada pelo crí­tico Salvyano Cavalcanti de Paiva de nor­destem. Dessa tendência voltada ao canga­ço, até então registrado em imagens ama­doras de Lampião pelo mascate Benjamin Abrahão, beberiam depois diversos reali­zadores, em especial Carlos Coimbra.

 Nunca faltaram a O Cangaceiro, portan­to, referências próprias que encantariam o sedento marketing de hoje. Ainda as­sim, acima delas, pairava a figura folclóri­ca de Lima Barreto, que em muito eclipsou a revisão do filme pelas gerações seguin­tes. Uma exceção surgiu no estudo de 1s­mail Xavier Sertão Mar, que trata do ban­dido social visto pelo filme e coloca este co­mo representação de um período brasileiro de subdesenvolvimento. De modo geral, no entanto, a avaliação da obra leva em conta seu diretor. Essa abordagem seduziu o pes­quisador e diretor Paulo Duarte, responsável pela caixa, quando dos preparativos do documentário O Velho Guerreiro Não Mor­rerá. Criado por uma avó que lhe contava as aventuras desse típico banditismo no Nor­deste do início do século XX, Duarte tor­nou-se entusiasta do filme e viu inconfor­mado a data do cinquentenário em 2003 passar sem reconhecimento. Adquiriu os direitos da fita para DVD e Blu-Ray junto aos herdeiros da família Khoury, respon­sável pelo espólio da Vera Cruz, e se lan­çou na empreitada de colher depoimentos e reunir material de arquivo para seu fIlme já exibido em festivais. A certa altura, deu­se conta de que reprisar as opiniões contra­ditórias sobre Lima Barreto e não ter o pró­prio nesse registro seria inócuo. Uma en­trevista do cineasta encontrada no açervo da TV Cultura alinhavou todo o painel.

 Se não chega a ser reveladora, a conver­sa no programa Luzes e Câmeras da emis­sora é rara e confirma um tipo inventado pelo diretor que em grande parte alimen­tou o mito O Cangaceiro. Foi uma figura no início considerada tragicômica, depois apenas trágica, lembra Duarte a Carta Capital, ao morrer pobre e solitário em 1982 numa casa de saúde de Campinas. Lima Barreto comenta a atitude equivoca­da, então necessária para produzir o filme, de ter aberto mão para a Vera Cruz dos di­reitos sobre a bem-sucedida empreitada. Diz não ter recebido um centavo. E perdeu oportunidades para alavancar seus proje­tos seguintes. Finalizou A Primeira Missa (1960), para em seguida renegá-lo.

 Sobre o mais representativo desses pro­jetos de gaveta, O Sertanejo, Paulo Emílio alegou ser o melhor filme brasileiro já fei-­to apenas baseado numa leitura do rotei­ro. Lima Barreto deixou vários escritos e não chegou a filmar, por exemplo, Quelé do Pajeú, por ter gasto o tempo e dinhei­ro necessários apenas na pré-produção. Anselmo Duarte, que assumiu a direção, assim como Walter Lima lr., responsável por levar às telas o roteiro de Lima para Inocência, são entrevistados. Há o depoi­mento de Vanja Orico, que abre a voz pa­ra a câmera com sua canção clássica, e ce­nas do casamento com a atriz Araçari de Oliveira, mãe de seu único filho, morto ainda jovem. Tanto quanto O Cangacei­ro, agora renovado a partir da mesma ma­triz depositada na Cinemateca Brasileira, o documentário nos faz crer que a vida de Lima Barreto renderia um épico nas telas digno de infindáveis debates.

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