Os afetos em “Melancolia”, de Lars von Trier

Maria Ivonilda

 Melancolia, de Lars von Trier. Uma pequena obra-prima. Esqueça a ideia de uma ameaça do fim do mundo com o final feliz. Esqueça o recurso didático de apresentar o fim do mundo com uma lição de moral acompanhada. Se o seu julgamento depende do final feliz ou de alguma espécie de lição, não veja o filme.

 Melancolia é um “legítimo” Lars von Trier: genuíno e visceral. Não é de hoje que o comparo a Nietzsche. Lars von Trier parece mesmo fazer um cinema a marteladas – e aqui abuso de uma analogia. Ocorre que as pessoas geralmente leem o discurso de Lars von Trier como um discurso que almeja atingir uma determinada visão última das coisas. Não é bem assim que as coisas funcionam. Em primeiro lugar, é óbvio que Lars von Trier parte de um discurso e, para fundamentá-lo, lança mão de imagens e outros diversos recursos, como metáforas, simbologias, etc. Lars von Trier parte sempre de um ponto fixo – em Dogville, a crítica ao “sonho” americano de uma liberdade que é mais baseada em uma sociedade do controle do que qualquer outra coisa; em Ondas do Destino, a crítica à tese que pretende legitimar o que moralmente aceitável e marginalizar o que não não se encaixa nesse perfil, como a loucura; e assim por diante. Mas de forma alguma Lars von Trier se prende a uma ideia de fundamentação última. Não há teleologia no cinema de Lars von Trier; embora o seu método investigativo identifique um ponto fixo, uma origem e, assim, permite com que possamos afirmar que o diretor faz uma genealogia.

 Voltando ao filme em questão. Justine (Kirsten Dunst) é a personagem em torno da qual giram as discussões do filme: ela é uma melancólica incurável. De forma bem geral, melancolia é um sentimento que pode ser entendido a partir das palavras que Guimarães Rosa colocou na fala de um dos personagens do seu Grande Sertão Veredas: “Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo…”. É esse o ponto que Lars von Trier explora no filme. Justine é a representação extrema da instabilidade, da forma caótica que configura a existência, da incerteza. O que podemos perceber é que Justine ainda tenta se apoiar na possibilidade de uma certeza, a única certeza capaz de eliminar a instabilidade da existência, a única certeza capaz de conferir um sentido infalível à experiência existencial, mas falha – talvez porque essa certeza não exista, talvez porque a nossa própria ideia de existência seja forjada. Ou seja: temos um passado, estamos no presente, mas de forma alguma somos donos do futuro; no máximo, seremos sujeitos de um futuro ao mesmo tempo em que estaremos sujeitos ao que acontecerá nele. Justine sabe que ter uma carreira, formar uma família e ter estabilidade financeira não é tudo, nem é garantia de coisa alguma – e nesse ponto, se distancia de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg), a racional, controladora de situações.

 Mas a ideia não é nova, embora o diretor procure filmá-la acreditando em um diferencial. Que é justamente o fato de acompanhar todo esse processo e transformação que Justine sofre quando admite que a instabilidade e a incerteza irão sempre acompanhá-la. Todo o ritmo do filme, nesse sentido, é “afetado” pela percepção de Justine. Nós vemos tudo o que acontece a partir da ótica de Justine e, portanto, é natural sentir um sentimento estranho no meio do filme ou uma vontade de sair imediatamente da sala de cinema. O jogo que o diretor nos propõe é justamente o jogo do sentir. Passamos a nos conhecer a partir dos nossos afetos e da forma que somos afetados. Justine é a representação de uma situação-limite na qual o indivíduo se confronta com esse caráter transitório da existência, mas a ideia se sustenta porque os outros personagens também possuem em seu íntimo, em menor ou maior grau, o conhecimento dessa outra faceta da vida e, em algum momento de suas vidas, irão “reconhecê-lo”.

 Qual é tese do diretor, no final das contas? Bem, acredito que a tese principal é que a nossa experiência existencial não seria tão valiosa se não envolvesse também os afetos (alegria, tristeza – representada no filme pela melancolia), os nossos desejos, o esforço que fazemos para traçar o caminho que queremos, pois no final das contas, são eles que nos humanizam. Embora muitas vezes sacrifiquemos essa outra faceta da nossa existência em prol de um ideal do qual estão excluídos certos elementos.

 No filme, as tentativas que os demais personagens fazem de negar os instintos, os impulsos, afetos e desejos de Justine não são nada mais que tentativas de desumanizá-la. E o que se “prova”, na verdade, é que o “sentir” é inevitável, um fator ineliminável na vida de cada um. E também algo imprescindível para que nos conheçamos. Observemos, por exemplo, a diferença radical sofrida pela personagem Claire – se antes parecia se tratar de um personagem dentro de um personagem, pois a irmã de Justine age em diversos momentos como um ser autômato, depois da aproximação do planeta Melancolia, constata-se que se trata mesmo de um “indivíduo”, um ser no mundo e, de certa forma, isso se tornou possível graças ao fato de que ela aceitou que não se pode colocar a razão no centro de suas ações a todo custo.

 A aproximação do planeta Melancolia representa a aproximação que os personagens passam a ter consigo mesmos. Obviamente, está aí incluída a ameaça de “morte”, mas apenas enquanto um artifício último para que não passemos pela existência sem saber o que de fato nos importa e sem que nós nos conheçamos – sendo esse conhecimento aqui tomado não apenas como sinônimo das faculdades do conhecimento. Enquanto metáfora, a ameaça de morte funciona como a última “chance” de descobrirmos a nossa humanidade, ela é a nossa redenção.

 Definitivamente, Melancolia não é mais um filme sobre o fim do mundo, mas é mais um filme em que o diretor tenta nos mostrar a finita – e valiosa! – experiência de ser humano em um mundo.

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