O Cisne Negro – o filme

Eliane Andrade

Título Original: Black Swan

País: EUA

Ano: 2010

Gênero: Drama, Suspense

Direção:Darren Aronofsky

Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder, Benjamin Millepied, Ksenia Solo, Kristina Anapau, Janet Montgomery, Sebastian Stan, Toby Hemingway, Sergio Torrado, Mark Margolis, Tina Sloan, Abraham Aronofsky.

O mundo do ballet clássico é um mundo tão mágico para o leigo, que poucas vezes, a cinematografia soube com fidedignidade transcrevê-lo. Lógico está que não é necessário nenhuma verossimilhança para falarmos em obra de arte. Mas talvez, se conhecêssemos com um pouco mais de detalhe o que é ser um artista clássico, não mantivéssemos a idéia de um mundo etéreo e doce.

O mundo da psicose, é um mundo que todos temem e do qual todos fazemos uma idéia bastante adequada, visto, vide Melanie Klein,  todos experienciarmos algum contato interno com ela.

Juntas, psicose e ballet, temos um mundo de tensão. Muito justo que assim seja o filme. Tenso do início ao fim.

Nina tem uma mãe absolutamente doente. Por algum motivo sua carreira de bailarina é interrompida, embora o expectador não saiba a razão. Parece que ter engravidado da protagonista é um dos pilares desta interrupção.

Assim, a trama se torna bem construída, uma vez que uma mãe, e quanto mais neurótica, como a do filme, mais o faz, sempre projeta em suas crias aquilo que desejava para si. Consciente ou inconscientemente. Então temos uma mulher que era bailarina. Isto, no universo feminino, é um dos ícones mais universais de feminilidade. Esta carreira feminina é tolhida por outro ícone feminino por excelência: a maternidade. Assim, a mãe de Nina perde uma grande realização de feminilidade profissional, mas ganha a realização biológica fundamental , a maternidade.

Mas, pelo visto, isto não a consola. Em algum lugar da mente dela a filha deve pagar pelo que lhe causou. E com isto, estabelece com a menina uma relação sádica, camuflada de alta proteção. Em algum lugar da mente dela, a bailarina interrompida, continuaria na filha. Mas esta bailarina teria que pagar o preço de ter atrapalhado a bailarina mãe.

Esta equação é possivelmente universal entre pais e filhos. Mas alguns, como diria Klein, tem seus núcleos psicóticos aumentados, criando uma relação de imprescindibilidade com os filhos, o que, garantidamente, gera alguma psicose nestes.

A mãe de Nina é uma mãe que não suporta ser esquecida, nem ultrapassada, nem suporta esperar que seja demandada. Sempre se adianta ao pedido da filha. Sempre mata a possibilidade de a filha descobrir o que quer.

No mais temos o desenvolvimento de uma adolescente, ou jovem adulta ( o filme não deixa claro) que, dadas as circunstâncias familiares – lembremos que o pai inexiste – tem uma lacuna colossal em relação a qualquer outra moça de sua idade.

Indefinição sexual, falta de autonomia, incapacidade de suportar as mudanças corporais, bulimia, anorexia, delírios. O filme mistura todos os sintomas clássicos que nos comunicam a pós-modernidade ( em homenagem ao Joaquim fundador, direi – alta modernidade, modernidade tardia) como a era do vazio, vide Lipovetsky.

Apesar da mente em frangalhos, da incipiente sexualidade e identidade sexual, Nina consegue ser uma bailarina de destaque. E talvez, por isto mesmo, como tudo indica uma fragilidade egóica muito grande, não pode sobreviver ao seu sucesso como tal. Brilha e morre. Pois se brilhasse e sobrevivesse, teria que suportar ter superado a mãe.

A cena de Nina e Lili no camarim da primeira, é genial. Genial porque revela a ambivalência da primeira bailarina, sua incapacidade de se ligar a alguém que não a mãe, sua impossibilidade de ser melhor que esta. O cisne branco e o negro em ação. A verdadeira ação de ambos.A luta de ambos, diferenciada.  Não a sensual como queria o professor, mas a de vida e morte.

Um filme a ser visto. Inesquecível.

 

Por Eliane Andrade

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