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Classe média é ingrata e não será leal a outros governos, diz sociólogo-Entrevista com Boaventuta Souza Santos

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Folha – Como vai a esquerda pelo mundo? Está em avanço ou em retrocesso?

Boaventura de Sousa Santos – O mundo é demasiado vasto para que possamos ter uma ideia global de como vai a esquerda, até porque em muitas regiões do mundo as clivagens sociais e políticas são definidas em dicotomias distintas da dicotomia esquerda/direita. Por exemplo, secular/religioso, cristão/ muçulmano, hindu/muçulmano, branco/negro, etnicamente X/etnicamente Y.

Na medida em que a dicotomia está presente, a definição dos seus termos é, em parte, contextual. Nos EUA, o partido democrático é um partido de esquerda mas na Europa ou América Latina seria considerado um partido de direita. O partido comunista chinês é de esquerda? Com estas cautelas, há que começar por perguntar: o que é a esquerda?

À escala do mundo só é possível uma resposta minimalista. Esquerda é toda a posição política que promove todos (ou a grande maioria dos) seguintes objetivos: luta contra a desigualdade e a discriminação sociais, por via de uma articulação virtuosa entre o valor da liberdade e o valor da igualdade; defesa forte do pluralismo, tanto nos mídia como na economia, na educação e na cultura; democratização do Estado por via de valores republicanos, participação cidadã e independência das instituições, em especial, do sistema judicial; luta pela memória e pela reparação dos que sofreram (e sofrem) formas violentas de opressão; defesa de uma concepção forte de opinião pública, que expresse de modo equilibrado a diversidade de opiniões; defesa da soberania nacional e da soberania nacional de outros países; resolução pacífica dos conflitos internos e internacionais.

Se esta definição, apesar de minimalista, parecer maximalista, isso é já parte da minha resposta. Ou seja, olhando mundo à nossa volta, um mundo de concentração da riqueza a um nível sem precedentes, de corrução endémica, de racismo e de xenofobia, de esvaziamento da democracia por via da privatização do Estado por parte de interesses poderosos, de concentração midiática, de guerras internacionais e civis de alta e de baixa intensidade, não podemos deixar de concluir que um mundo assim não é um mundo cuidado pela esquerda. É, de fato, um retrato cruel da crise da esquerda.

A crise de 2008 e as medidas de austeridade impulsionaram movimentos de protesto em vários países, como na Espanha e na Grécia. Há uma leitura global para isso? A esquerda soube aproveitar o tempo de crise capitalista?

As medidas de austeridade são o que fora da Europa sempre se chamou política de ajuste estrutural, uma política de que sempre foi campeão o FMI. São sempre medidas de privatização e de concentração da riqueza nacional, de redução das políticas sociais (saúde, educação, pensões etc.) e de diminuição do peso do Estado na economia e na sociedade. Tem-se chamado, a essa política, neoliberalismo.

Essa política foi seguida nos últimos 30 anos em muitas partes do mundo e, portanto, muito antes da crise de 2008. A crise de 2008 foi o resultado da desregulação do capital financeiro na década anterior. E o mais dramático foi que a crise foi ‘resolvida’ por quem a causou. Daí a situação de volatilidade financeira permanente em que nos encontramos. Na Europa, a crise de 2008 acabou por ser o pretexto para estender a política neoliberal a uma das regiões mais ricas do mundo.

Os movimentos de protesto foram muito distintos mas tiveram, em geral, duas bandeiras: a luta contra a concentração da riqueza (os 99% contra os 1%) e pela democracia real (no caso da Primavera Árabe era luta pela democracia sem adjetivos). Essas duas bandeiras estão inscritas no DNA da esquerda. Mas, na Europa, a esquerda social-democrática (partidos socialistas e partido trabalhista inglês) tinham-se rendido há muito ao neoliberalismo através do que se chamou a terceira via, que, de fato, foi um beco sem saída.

Nessa esquerda não havia alternativa à resolução da crise financeira mesmo que tivesse havido poder para a impor. Na esquerda-à-esquerda houve novidades. Tanto na Grécia como na Espanha houve vitórias importantes, a emergência do Syriza e do Podemos.

Mas o problema maior foi que a esquerda europeia no seu conjunto não se deu conta de que o Banco Central Europeu e o euro tinham sido criados segundo o mais puro catecismo neoliberal. Disso resultou que as instituições europeias são hoje mais neoliberais que os diferentes Estados europeus e têm um poder enorme para intervir neles, sobretudo nos mais pequenos e periféricos.

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“A dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado”

Entrevista com Maria Lucia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal

Publicado em

CartaCapital:
 O que é a dívida pública?

Maria Lucia Fattorelli: A dívida pública, de forma técnica, como aprendemos nos livros de Economia, é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no fato de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele poderia se endividar para o ingresso de recursos para financiar todo o conjunto de obrigações que o Estado tem. Teoricamente, a dívida é isso. É para complementar os recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações. Isso em principio.

CC: E onde começa o problema?

MLF: O problema começa quando nós começamos a auditar a dívida e não encontramos contrapartida real. Que dívida é essa que não para de crescer e que leva quase a metade do Orçamento? Qual é a contrapartida dessa dívida? Onde é aplicado esse dinheiro? E esse é o problema. Depois de várias investigações, no Brasil, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, em vários países latino-americanos e agora em países europeus, nós determinamos que existe um sistema da dívida. O que é isso? É a utilização desse instrumento, que deveria ser para complementar os recursos em benefício de todos, como o veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro. Esse é o esquema que identificamos onde quer que a gente investigue.

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CC: E quem, normalmente, são os beneficiados por esse esquema? Em 2014, por exemplo, os juros da dívida subiram de 251,1 bilhões de reais para 334,6 bilhões de reais no Brasil. Para onde está indo esse dinheiro de fato?


MLF: Nós sabemos quem compra esses títulos da dívida porque essa compra direta é feita por meio dos leilões. O processo é o seguinte: o Tesouro Nacional lança os títulos da dívida pública e o Banco Central vende. Como o Banco Central vende? Ele anuncia um leilão e só podem participar desse leilão 12 instituições credenciadas. São os chamados dealers. A lista dos dealers nós temos. São os maiores bancos do mundo. De seis em seis meses, às vezes, essa lista muda. Mas sempre os maiores estão lá: Citibank, Itaú, HSBC…é por isso que a gente fala que, hoje em dia, falar em dívida externa e interna não faz nem mais sentido. Os bancos estrangeiros estão aí comprando diretamente da boca do caixa. Nós sabemos quem compra e, muito provavelmente, eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira. É a aplicação mais rentável do mundo. E só eles compram diretamente. Então, muito provavelmente, eles são os credores.

CC: Por quê provavelmente?

MLF: Por que nem mesmo na CPI da Dívida Pública, entre 2009 e 2010, e olha que a CPI tem poder de intimação judicial, o Banco Central informou quem são os detentores da dívida brasileira. Eles chegaram a responder que não sabiam porque esses títulos são vendidos nos leilões. O que a gente sabe que é mentira. Porque, se eles não sabem quem são os detentores dos títulos, para quem eles estão pagando os juros? Claro que eles sabem. Se você tem uma dívida e não sabe quem é o credor, para quem você vai pagar? Em outro momento chegaram a falar que essa informação era sigilosa. Seria uma questão de sigilo bancário. O que é uma mentira também. A dívida é pública, a sociedade é que está pagando. O salário do servidor público não está na internet? Por que os detentores da dívida não estão? Nós temos que criar uma campanha nacional para saber quem é que está levando vantagem em cima do Brasil e provocando tudo isso.

CC: Qual é a relação entre os juros da dívida pública e o ajuste fiscal, em curso hoje no Brasil?

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O futuro das ações afirmativas

Luciana Alvarez 

Publicado em: http://www.cartanaescola.com.br/single/show/393

 A antiga polêmica nos Estados Unidos sobre a legitimidade de políticas afirmativas com base na raça para ingresso em universidades ganhou novo capítulo recentemente. Em abril, após seis meses de deliberação, a Suprema Corte considerou legal a decisão de Michigan de proibir preferências raciais no processo seletivo para o ensino superior público nesse estado – embora também tenha julgado que o fato de outros estados terem preferências raciais não fere a Constituição. Além de reacender os debates entre grupos pró e contra a preferência racial no ingresso universitário, a decisão está levando as instituições de ensino superior a procurar novas maneiras de promover a diversidade sem perguntar diretamente aos candidatos nos formulários de seleção qual a raça deles. As instituições continuam podendo dar preferência a atletas, músicos e filhos de ex-alunos.

 O estado de Michigan fez um referendo em 2006, no qual a preferência racial foi banida. Outros oito estados adotam a mesma proibição, e há previsão de referendos em mais três para se decidir sobre o assunto. Perto de 25% da população americana já vive em locais onde a raça não pode ser critério na seleção dos calouros pelas universidades. Na Universidade de Michigan, o ingresso de alunos negros caiu 33% entre 2006 e 2012, segundo dados da própria instituição.

Autor de um estudo chamado Uma Ação Afirmativa Melhor, Richard Kahlenberg, pesquisador da Century Foundation, instituto de análise de políticas públicas em Washington, reconhece que, com o fim do critério racial, existe uma tendência inicial de queda no número de alunos pertencentes a minorias. Mas ele garante que, ao criarem novas políticas de admissão dando preferência a estudantes de classes sociais menos favorecidas, as universidades conseguem se tornar ainda mais diversas.

 “A ação afirmativa ideal deve olhar para a diferença econômica em vez da racial, porque hoje o maior obstáculo para o sucesso de um estudante vem do fato de ele ser pobre. As filhas do presidente Obama são negras, mas são economicamente privilegiadas e não merecem preferência para entrar na faculdade”, afirmou Kahlenberg em entrevista a Carta na Escola. “Cada vez mais as pessoas estão percebendo que a base da ação afirmativa deve ser econômica, porque hoje o grande desafio envolve a divisão entre ricos e pobres.”

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A verdadeira história de Gaza

Postado em 12 jul 2014

 

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-verdadeira-historia-de-gaza-um-artigo-de-robert-fisk/

ROBERT FISK

Publicado originalmente no Independent.

OK, só nessa tarde, o escore de dois dias de mortes é 40 mortos palestinos e nenhum morto israelense. Passemos agora à história de Gaza de que ninguém falará nas próximas horas.

 É terra. A questão é terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há hoje 1 milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?

As famílias deles, sim, viveram ali, não eles, no que agora é chamado Israel. E foram expulsas – e tiveram de fugir para salvar suas vidas – quando foi criado o estado de Israel.

E – aqui, talvez, melhor respirar fundo antes de ler – o povo que vivia em Sederot no início de 1948 não eram israelenses, mas árabes palestinos. A vila palestina chamava-se Huj. Nunca foram inimigos de Israel. Dois anos antes de 1948, os árabes de Huj até deram abrigo e esconderam ali terroristas judeus do Haganah, perseguidos pelo exército britânico. Mas quando o exército israelense voltou a Huj, dia 31/5/1948, expulsaram todos os árabes das vilas… para a Faixa de Gaza! Tornaram-se refugiados. David Ben Gurion (primeiro primeiro-ministro de Israel) chamou a expulsão de “ação injusta e injustificada”). Pior, impossível. Os palestinos de Huj, hoje Sderot, nunca mais puderam voltar à terra deles.

E hoje, bem mais de 6 mil descendentes dos palestinos de Huj – atual Sderot – vivem na miséria de Gaza, entre os “terroristas” que Israel mente que estaria caçando, e os quais continuam a atirar contra o que foi Huj.

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A história do direito de autodefesa de Israel é a história de sempre. Hoje, foi repetida e a ouvimos mais uma vez. E se a população de Londres estivesse sendo atacada como o povo de Israel? Não responderia? Ora bolas, sim. Mas não há mais de um milhão de ex-moradores de Londres expulsos de suas casas e metidos em campos de refugiados, logo ali, numas poucas milhas quadradas cercadas, perto de Hastings!

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IDF’s Gaza assault is to control Palestinian gas, avert Israeli energy crisis

Publicado em: http://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/jul/09/israel-war-gaza-palestine-natural-gas-energy-crisis

Por Nafeez Ahmed

Israel’s defence minister has confirmed that military plans to ‘uproot Hamas’ are about dominating Gaza’s gas reserves

Yesterday, Israeli defence minister and former Israeli Defence Force (IDF) chief of staff Moshe Ya’alon announced that Operation Protective Edge marks the beginning of a protracted assault on Hamas. The operation “won’t end in just a few days,” he said, adding that “we are preparing to expand the operation by all means standing at our disposal so as to continue striking Hamas.”

This morning, he said:

“We continue with strikes that draw a very heavy price from Hamas. We are destroying weapons, terror infrastructures, command and control systems, Hamas institutions, regime buildings, the houses of terrorists, and killing terrorists of various ranks of command… The campaign against Hamas will expand in the coming days, and the price the organization will pay will be very heavy.”

But in 2007, a year before Operation Cast Lead, Ya’alon’s concernsfocused on the 1.4 trillion cubic feet of natural gas discovered in 2000 off the Gaza coast, valued at $4 billion. Ya’alon dismissed the notion that “Gaza gas can be a key driver of an economically more viable Palestinian state” as “misguided.” The problem, he said, is that:

“Proceeds of a Palestinian gas sale to Israel would likely not trickle down to help an impoverished Palestinian public. Rather, based on Israel’s past experience, the proceeds will likely serve to fund further terror attacks against Israel…

A gas transaction with the Palestinian Authority [PA] will, by definition, involve Hamas. Hamas will either benefit from the royalties or it will sabotage the project and launch attacks against Fatah, the gas installations, Israel – or all three… It is clear that without an overall military operation to uproot Hamas control of Gaza, no drilling work can take place without the consent of the radical Islamic movement.”

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Por que EUA e Europa relutam em criticar Israel

Por BBC Brasil.

Em: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-eua-e-europa-relutam-em-criticar-israel/

Enquanto várias cidades do mundo registraram protestos contra Israel pelos ataques à Faixa de Gaza, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia muitos governos relutam em questionar a estratégia militar israelense.

Desde o início da ofensiva, mais de 1.800 palestinos foram mortos, 75% deles civis, segundo as Nações Unidas. As vítimas israelenses foram 67, quase todos militares, à exceção de três civis.

Mas a ONU fez grandes críticas a Israel depois que uma escola da organização no campo de refugiados de Jabaliy, em Gaza, foi bombardeada pelos israelenses – episódio que resultou em 15 mortes. Os Estados Unidos chegaram a criticar Israel, mas ressaltaram o direito do país “se defender”.

Há alguns dias, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália também pediram um cessar-fogo e reprovaram a perda de vidas, mas da mesma forma foram cuidadosos em ressaltar o “direito de defesa” de Israel.

Quando o Conselho de Direitos Humanos da ONU votou na quarta-feira passada uma abertura de investigação para determinar se Israel cometeu crimes de guerra em Gaza o resultado foi 29 a 1. Os Estados Unidos votaram contra, e França, Alemanha e Grã-Bretanha se abstiveram.

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Gaza – A perversidade de quem um dia foi perseguido…

Debora Cattani

Publicado em: http://www.ligiadeslandes.com.br/12/07/2014/gaza-a-perversidade-de-quem-um-dia-foi-perseguido/

Sou judia. Já morei em Israel. Já morei a 15 minutos da Faixa de Gaza. Mas cresci boa parte da vida no Brasil, distante do conflito. Tive uma educação judaica até os 15 anos.

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Sou filha de professora e obviamente, como jornalista, não sou alienada. Não consigo entender essa guerra,  que é tão próxima e tão irreal. O que exatamente os não-judeus nos fizeram para termos tanto ódio?

Chamo assim, pois o estado de Israel é um estado JUDEU e não aceita outras religiões, salvo em Jerusalém, que pasmem, é uma cidade laica.

Não são só muçulmanos que estão morrendo. Aliás, os árabes não são um única religião, existem árabes católicos, ateus e até mesmo judeus.

O que o estado de Israel está fazendo é desumano.

Mais desumano que o holocausto, mais duradouro que o holocausto, mais pertinente que o holocausto, pois hoje em dia todo o mundo pode ver com os próprios olhos e MESMO assim, poucos reagem.

Óbvio que a guerra tem dois lados e muitos judeus morrem também. Mas a proporção é absurda. A cada bomba lançada sobre Israel, 30 são devolvidas para Gaza. Dizem que três adolescentes judeus morreram… E as 14 CRIANÇAS que perderam a chance de ter uma vida longa em Gaza?

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