O maior chute que não foi gol da história

por Mauro Beting em 30.mai.2015 às 12:31h

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Foi contra o River Plate o gol mais importante do Cruzeiro. Ao menos para quem não é Cruzeiro como eu. Ou que foi Cruzeiro demais na final da Libertadores de 1976.

Estava 2 a 2 na terceira partida decisiva. O River perdia por 2 a 0 e buscou o empate com um gol de falta marcado enquanto Raul arrumava a barreira. Respondido pelo endiabrado Joãzinho na mesma moeda. Quando o mundo esperava Nelinho, Joãozinho encobriu os oito argentinos e mandou no canto de Landaburu, ganhando a América pela primeira vez na Libertadores celeste.

Era um dia 30 como hoje. Mas era de julho de 1976. Quase três anos depois da deposição e morte de Salvador Allende no Chile. Meses depois daquele mesmo estádio Nacional  de Santiago ter se transformado em lamentável incidente internacional como prisão de detidos políticos.

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Era um dia 30 como hoje. De maio de 2013. Dois anos depois, hoje e pra sempre é Dia de São Victor para o torcedor atleticano.

Também valia Libertadores como o golaço de Joãozinho. Mas, então, apenas valeria lá pra frente. Eram as quartas-de-final no Independência. Ainda não era o jogo do título. Não foi o gol da América. Nem gol foi.

Mas, assim como aquele maroto pé de Joãozinho fez daquele lance no Chile em 1976 o gol da vida celeste, o chute de canhota que virou defesa que virou antologia de Victor em 2013 é o momento mais emocionante da história do Atlético para quem não é Galo.

Nem vou citar outros momentos-chave de grandes brasileiros. Fico apenas nas Gerais de Minas.

O que foi João em 1976 foi Victor em 2013.

Palavra de quem não é nem um e nem outro. Mas foi ambos nas duas campanhas e conquistas sensacionais.

O bico que Victor deu na bola de Riascos não apenas defendeu o Galo e eliminou o Tijuana. Mandou para a lanterna dos infernos todas as disputas de pênaltis perdidas pelo time mineiro. Todas as derrotas doídas do Galo doido para todo tipo de rival em todo tipo de campeonato – e rival também se entende arbitragem.

Naquele pênalti no Horto, Victor não apenas deu um bico para longe da eliminação previsível para quase todos. Defendeu quase que a convicção até do próprio atleticano que, no  fundo, no final dos tempos e torneios, daria tudo sempre errado para o Atlético. O Galo que chutaria os três pênaltis para fora e pra cima contra o  São Paulo em 1977. Faltariam atletas para vencer o  Flamengo em 1980, 1981 e 1987. Faltaria sempre alguma coisa em qualquer disputa além Minas desde 1971.

Qualquer time estaria praticamente eliminado naquele pênalti do Tijuana.

O Atlético não. Ele já estava desclassificado, desmoralizado, e rebaixado se aquela bola entrasse mais uma vez. Não era apenas mais uma eliminação. Era o fim de quase tudo – menos da paixão do torcedor.

Não teria Copa do Brasil de 2014 histórica pro Galo. Não teria o ótimo elenco montado desde então, e que pode voltar a ser campeão brasileiro em 2015.

Se aquela bola de Riascos entra como a lógica mandava, desmontava  um dos melhores Atléticos que vi. E sempre com o mesmo final infeliz pra quem não é fiel atleticano.

Mas, há exatos dois anos, o ainda mais que correto Victor deu um bico no Tijuana, no terreiro, no enterro, no desterro.

Não foi um gol de Reinaldo, que isso sempre se esperou.

Foi  um inesperado bico de goleiro no fim do jogo para bem longe do Horto.

Era impossível. Mas foi Atlético.

Aquela bola é tão mágica que ainda não caiu. Nem vão  deixar cair.

A ficha já caiu. Deu Libertadores, deu Copa do Brasil, deu ao atleticano um outro ar, ainda mais vida, ainda mais viva a paixão pelo clube.

Naquela bola defendida, mudou um pouco o que o futebol acha do Galo, e um tanto o que o atleticano acha do time.

Ele continua sendo Galo como continuará sendo Galo.

Mas, naquele hora em que tudo sempre dava tão errado, deu tudo tão certo que, se em campo, a confiança é sempre a mesma, eu tenho certeza que o atleticano na rua, em casa, no trampo, na escola, está cada vez mais preparado. Mais confiante. Mais vencedor.

O atleticano, como atleticano que é, não precisava daquela defesa eterna para ser mais atleticano.

Mas o atleticano, como ser humano que é, precisou demais de São Victor para ser mais humano.

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