O avanço da direita no Congresso e o novo perfil dos eleitos

Direita na Câmara de Deputados

Publciado em: http://jornalggn.com.br/noticia/o-avanco-da-direita-no-congresso-e-o-novo-perfil-dos-eleitos#.VI2zJ6a0apg.twitter

Cristian Klein (Valor, 08/12/14) informa que, depois de um período em que a Câmara vinha registrando, desde a chegada do PT ao poder federal, o aumento de parlamentares ligados à esquerda, a eleição de 2014 consolidou uma inflexão na tendência do perfil ideológico dos deputados federais.

Na esteira da disputa presidencial, a direita cresceu no Parlamento, de acordo com estudo do cientista político Adriano Codato, que coordena o Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, vinculado à UFPR.

direita-na-cc3a2mara-de-deputados

Para Codato, um importante movimento em curso no país, e que se expressou nas urnas em outubro, é a popularização da direita. O trabalho do pesquisador já analisou o perfil geográfico e profissional de 7.261 deputados eleitos desde 1945 e mostra que a curva de parlamentares de direita vai se aproximando do último ápice dos conservadores no Congresso, em 1990, um ano depois da eleição de Fernando Collor de Mello.

Pela classificação de Codato, 222 candidatos de partidos de direita se elegeram em outubro, diante de 291 que pertencem a legendas consideradas de centro ou de esquerda. É o segundo aumento consecutivo desde 2006, quando a direita teve o pior desempenho em 18 eleições, divididas em três fases:

 democracia populista (1945-1962),

ditadura militar (1966-1978) e

democracia liberal (1982-2014).

O detalhe é que a recuperação da direita tem como característica novos partidos e novas faces, ressalta o cientista político. Em vez do arquétipo do “coronel”, do grande proprietário de terras do Nordeste, o deputado de direita hoje, tipicamente, é identificado na figura do pastor evangélico do Sudeste, e nos comunicadores de rádio e TV.

 E, em vez de pertencerem a grandes legendas, emergem de pequenas siglas, cuja estratégia bem-sucedida tem pulverizado o sistema partidário. Exemplos marcantes são os campeões de voto Marco Feliciano (PSC-SP) e Celso Russomanno (PRB-SP), sínteses do novo perfil: pastor e apresentador de TV, de um Estado do Sudeste e filiados a partidos de pequeno porte – os dois que mais cresceram nas últimas eleições da Câmara.

 Graças a representantes como esses, mais próximos do cidadão, a direita ganha popularidade. O deputado conservador de cunho elitista – o grande fazendeiro ou o empresário – ainda existe, mas tem perdido terreno, argumenta Codato. “A queda espetacular do DEM produziu isso. Essa direita elitizada não é mais majoritária. Há uma popularização da direita”, afirma o pesquisador.

Associada ao desgaste de 12 anos do governo de centro-esquerda do PT, a mudança no perfil da direita impulsiona um discurso antes recalcado ou dissimulado. O fenômeno da “direita envergonhada” — presente no Brasil nas últimas três décadas, desde o fim da ditadura militar — parece estar com os dias contados.

 Entre os artistas, geralmente simpáticos à esquerda, pontua a militância do conhecido cantor pop João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão. Crítico da “doutrinação de esquerda” nas escolas, tornou-se figura fácil de manifestações antipetistas. Em uma delas, esteve no Congresso, onde encontrou Feliciano e foi recebido por parlamentares do DEM, para protestar contra a votação do projeto que alterou a meta fiscal de 2014.

 Pela primeira vez, reconhece Codato, um candidato a presidente da República — nanico, mas cujas declarações em debate tiveram ampla repercussão, como Levy Fidelix (PRTB) — se intitulou um representante da direita. Outro concorrente, o Pastor Everaldo (PSC), fez campanha a partir de um discurso conservador de manual: em defesa do Estado mínimo e dos valores da família cristã.

No rescaldo da polarização entre os maiores adversários, o PT e o PSDB, manifestantes saíram, e ainda têm saído, às ruas para pedir a volta da ditadura militar. “Vimos que existe a extrema direita assim como há a extrema esquerda do PSTU, embora, neste caso, ambos sejam minoritários. Se surgir um partido militar não terá número relevante de filiados”, diz o pesquisador.

 Mesmo o PSDB, o antagonista do PT que costuma ser classificado pela maioria dos estudiosos como uma legenda de centro, também moveu-se para a direita, com a candidatura do senador mineiro Aécio Neves. “Houve mudança do discurso. A bandeira clássica da social-democracia está, cada vez mais, com o PT. Para se contrapor à esquerda, foi a primeira eleição em que o partido tentou recuperar o legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e valores da economia de mercado. Isso não aparecia com [José] Serra, em 2002 e 2010, nem com [Geraldo] Alckmin, em 2006″, diz Codato.

Apesar disso, os tucanos continuam sendo considerados de centro. O estudo classifica como siglas de direita o DEM, PP, PR, PSC, PTB e o novato PSD, fundado em 2011 pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que camaleonicamente afirmou que a legenda não seria nem de direita, nem de centro, nem de esquerda, por ter um “programa a favor do Brasil”. “É de direita”, enquadra o cientista político.

O critério para definir o posicionamento ideológico dos partidos são trabalhos que utilizam diferentes metodologias, seja a autoclassificação – como as pesquisas com parlamentares do Congresso Nacional, aplicadas desde 1990 pelo cientista político Timothy Power, da Universidade de Oxford -, seja a análise da propaganda eleitoral ou dos programas partidários, como a realizada pelos pesquisadores Gabriela Tarouco (UFPE) e Rafael Madeira (PUCRS).

O comportamento legislativo – como votam os parlamentares no Congresso – tem menos peso, já que a lógica predominante e que contrapõe governo e oposição nem sempre permite uma distinção mais acurada da ideologia. Na ampla coalizão que vota com a administração liderada pelo PT, há partidos de direita, como o PP, e na oposição consta o PSOL, de esquerda.

Na República de 1946, cita o professor, legendas como o Partido Democrata Cristão (PDC) e o Partido Social Progressista (PSP), fundado por Ademar de Barros, costumavam votar a favor de pautas progressistas, como a legislação trabalhista de Getulio Vargas, embora fossem de direita.

 No atual sistema partidário, siglas com programas vagos e ideologia pouco clara são classificadas como fisiológicas. É o caso de PEN, PHS, Pros, PTdoB, e PTN. Junto com as pequenas siglas consideradas de direita – PRB, PMN, PRP, PRTB, PSDC, PSL e PTC – elas formas o campo conservador em ascensão.

Do outro lado, para efeitos de análise, estão o centro – onde figuram PMDB, PSDB, PPS, PV e SD – e a esquerda, representada por PT, PSB, PDT, PCdoB e PSOL.

Na comparação histórica, há ainda o caso à parte do MDB. Codato argumenta que o Movimento Democrático Brasileiro, antecessor do atual PMDB, reunia políticos ideologicamente muito diferentes, ainda que a bandeira principal fosse a oposição à ditadura. Por isso, no banco de dados do observatório, os deputados de direita (o que inclui também os fisiológicos) são contrapostos à categoria “outros”, que engloba os de centro, esquerda e o MDB.

O auge da direita na Câmara dos Deputados foi durante o regime militar, quando o partido do governo, a Arena, predominava e se contrapunha ao MDB. O processo de redemocratização, nos anos 1980, levou ao crescimento da bancada de centro e de esquerda até um refluxo, em 1990, com o repique da direita liderada por Collor.

Desde o impeachment do ex-presidente, seguido pelo fortalecimento e pela chegada do PT ao poder central, o campo conservador minguou paulatinamente por quatro eleições seguidas (1994 a 2006). Agora, há uma recuperação que, como num gráfico de pesquisa eleitoral, se assemelha a uma boca de jacaré se fechando.

Para Adriano Codato, o fenômeno reflete, em primeiro lugar, uma reação classista ao PT, liderada pela classe média tradicional, que não melhorou tanto de vida quanto os pobres e a emergente classe C. “Ela reage à perda de status e de símbolos de distinção social, como o acesso à universidade, às viagens de avião, às idas a Miami para fazer compras de carrinhos de bebê”, diz o cientista político.

Em segundo lugar, acrescenta, as classes médias que não dependem tanto do serviço público oferecido pelo Estado – que frequentam escola particular, têm plano de saúde – podem se dedicar a valores pós-materialistas, como a ética na política, enfatizada pelas denúncias de escândalos de corrupção que se concentram no governo federal.

 “A honestidade é o seu parâmetro para avaliar governos. Ainda que seja um parâmetro seletivo, que tem um viés antiesquerda. Esse eleitor avalia de acordo com a informação que lhe chega. Se um telejornal nacional não faz reportagens sobre a escassez de água em São Paulo e, depois de reeleito o governador, o assunto é amplamente noticiado, a avaliação se dará por esse filtro a que é submetida”.

Um terceiro fator seria a noção equivocada, diz o cientista político, de que governo federal, liderado pelo PT, é “responsável por tudo”. “Serviços públicos como saúde e educação muitas vezes estão sob competência estadual ou municipal. A violência é um problema estadual. Mas muitos eleitores não sabem”.

Em “Tropa de Elite“, os dois personagens principais, o policial Capitão Nascimento e o professor de história e defensor dos direitos humanos, Diogo Fraga, inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), se digladiam em torno dos métodos para resolver o problema do crime organizado. A ideologia de um, à direita, é oposta à do outro, à esquerda. Entre o primeiro e o segundo filme da série, o professor elege-se e vai defender suas ideias na Assembleia Legislativa.

 O que as eleições parlamentares nos últimos anos no Brasil vêm mostrando é que, na vida real, os policiais também têm buscado entrar para o mundo da política. De acordo com os dados do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, o fenômeno da popularização da direita tem sido acompanhado pelo aumento no número de candidaturas de policiais militares, civis, federais, bombeiros, militares reformados e integrantes da Forças Armadas nas disputas para as vagas de deputado federal, estadual e distrital. Desde 1998, passaram de cem para 967 candidatos.

 Mais interessante, destaca Luiz Domingos Costa, pesquisador da UFPR, é que a porta de entrada principal, na política, para os policiais mudou. Em 1998, 38% competiam filiados aos grandes partidos de direita. Em 2014, 49,1% concorreram por pequenas legendas de direita (26,1%) ou fisiológicas. Estas registram grande crescimento no período, de 5,3%, em 1998, para 23% neste ano. A filiação a pequenas legendas de esquerda também foi significativa, e subiu de 0,4% para 7,3% – o que indica que os policiais não são totalmente associados a siglas de direita. A preferência, no entanto, é clara: somada a filiação a grandes legendas conservadoras, o total chega a 70,3%. Bem menos que a associação aos grandes de centro (11,5%) ou de esquerda (10,8%).

 Para Costa, os eleitores estão cada vez mais voltados ao tema da segurança pública. “O sucesso eleitoral de candidatos ligados às corporações tem repercussão interna e desperta a ambição dos demais. É o caso do deputado Fernando Francischini [ex-delegado da Polícia Federal, reeleito pelo SD-PR], que prendeu o [traficante colombiano Juan Carlos] Abadía, em 2007″, diz.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s