Balanço do Brasileirão 2014

André Marques

Publicado em:

http://espn.uol.com.br/post/466434_balanco-do-brasileiro-2014-selecao-craque-e-uma-boa-noticia-no-ano-dos-7-a-1-que-nao-devem-ser-esquecidos

A constatação não é nova. Você viu aqui antes da Copa do Mundo que já era possível observar alguma evolução tática e estratégica no futebol jogado na Série A do Brasil, mesmo que a falta dos espaços que o jogador daqui tanto aprecia prejudique o nível técnico das partidas.

Agora, mesmo com a depressão depois da maior derrota da História da seleção brasileira,  vale a mesma observação. Porque, apesar de todas as dificuldades, é possível identificar uma maior preocupação com posse, pressão no homem da bola, compactação dos setores, intensidade.

 Não que seja uma regra a adaptação ao que se joga na Europa no mais alto nível ou que haja alguma proibição de pensar diferente, com saudosismo ou invocando a “brasilidade”. Apenas uma questão de lógica: qual o objetivo de vencer uma competição nacional? Além da glória da conquista em si, chegar à Libertadores. Depois vencê-la e disputar o Mundial FIFA em condições de duelar com o campeão europeu.

 O que é melhor? Repetir o Corinthians de Tite já antenado em 2012, mesmo considerando que o Chelsea não era o grande time da Europa naquele momento, ou ser mais um a protagonizar vexames como os do Internacional em 2010 e Atlético Mineiro no ano passado, parando nas semifinais contra africanos e levando vareios táticos? Isso sem contar os 12 gols que o Santos sofreu do Barcelona desde 2011.

 Por isso a necessidade de se alinhar ao que se faz de mais atual no mundo. A Libertadores também sinalizou, com o Cruzeiro sendo o único a alcançar as quartas-de-final. O Flamengo campeão da Copa do Brasil sequer passou da fase de grupos, repetindo a pífia campanha de 2012 no torneio continental. Depois de quatro conquistas brasileiras seguidas.

 Já que a CBF não promoveu uma parada para reflexão e propostas de mudanças depois do Mundial, os treinadores agiram.

 Marcelo Oliveira aprimorou seu Cruzeiro em compactação e posse de bola. Recordista de vitórias e pontuação na era dos pontos corridos com 20 times. No mesmo 4-2-3-1, investiu em volantes com passe mais qualificado: Henrique e Lucas Silva. Buscou propor o jogo em casa e também longe de seus domínios. Com o status de favorito pelo título no ano passado, foi obrigado a trabalhar para criar espaços.

 Goias x CruzeiroREPRODUÇÃO ESPN

Contra o Goiás fora de casa, compactação defensiva do campeão – mas sem abrir mão do ataque

Contra o Goiás fora de casa, compactação defensiva do campeão – mas sem abrir mão do ataque

A solução? Mobilidade na frente, com Everton Ribeiro, líder de assistências, saindo da direita para articular as jogadas pelo centro e abrir o corredor para Mayke, o lateral que passa em velocidade. Marcelo Moreno se mexe e deixa espaços para as infiltrações de Ricardo Goulart. Sem contar as jogadas aéreas do time que mais efetuou e acertou cruzamentos na competição. Recurso legítimo se não for a única arma ofensiva.

 CruzeiroREPRODUÇÃO PFC

Everton Ribeiro centraliza e abre o corredor para Mayke buscar a linha de fundo e cruzar para os artilheiros Moreno e Ricardo Goulart.

Everton Ribeiro centraliza e abre o corredor para Mayke buscar a linha de fundo e cruzar para os artilheiros Moreno e Ricardo Goulart.

Como o “Muricybol” que ficou no passado do São Paulo. Com Kaká e Ganso pelos lados em uma segunda linha de quatro, o tricolor paulista colocou bola no chão e chegou a dar espetáculo em algumas partidas e surgir como candidato ao título depois dos 2 a 0 sobre o Cruzeiro no Morumbi. Dois meias talentosos que se juntavam a Kardec e Pato, depois Luís Fabiano.

Denílson qualificando a saída de bola com os zagueiros e Souza se juntando ao quarteto ofensivo que ganhou o reforço de Michel Bastos como “coringa”. Muricy Ramalho se reinventou com mais troca de passes e menos pragmatismo. Nenhuma revolução, mas uma mudança no modelo de jogo que justifica a menção. Até o elogio.

 Sao PauloREPRODUÇÃO PFC

Gol de Souza para o São Paulo contra o Botafogo, o time chegou com seis jogadores no ataque, cinco na área adversária: prática frequente no campeonato

Gol de Souza para o São Paulo contra o Botafogo, o time chegou com seis jogadores no ataque, cinco na área adversária: prática frequente no campeonato

Difícil é exaltar os raros momentos de bom futebol de Internacional e Corinthians. Tirando as boas combinações de D’Alessandro e Aránguiz no 4-1-4-1 de Abel Braga no Colorado e a fase espetacular de Paolo Guerrero, atuando mais pela esquerda e infiltrando na área em diagonal na variação de 4-2-3-1 e 4-3-1-2 de Mano Menezes, as equipes, embora competitivas, foram melhores na tabela que no desempenho em campo.

Corinthians no pragmático 4-2-3-1/4-3-1-2 de Mano Menezes, que dependeu demais de Guerrero e da solidez defensiva que faltou em alguns jogos.

CorintiansOLHO TÁTICO

O Fluminense de Cristóvão Borges teve atuações mais brilhantes. Setores próximos, troca de passes, pressão no campo de ataque, peças girando e dando opções para o jogo fluir. Faltou fôlego, porém. Porque a Copa do Mundo deixou claro que é preciso ter inteligência para dosar a intensidade em um país tropical, que mina as forças com calor e umidade, e continental, obrigando os atletas a se submeteram a longas viagens que atrapalham a recuperação.

Faltou o atacante de velocidade que o treinador pediu para descansar o time jogando em contragolpes quando necessário. Fred terminou como artilheiro, mas seus 18 gols não compensaram coletivamente a falta de mobilidade em algumas partidas importantes. O futebol é democrático, mas a Copa também deixou claro que, no mais alto nível, o típico centroavante vai perdendo cada vez mais espaço.

 FredTRUMEDIA

Fred no campeonato: típico centroavante que cheira a gol e foi o artilheiro do campeonato, mas fez o Fluminense perder mobilidade na frente.

Fred no campeonato: típico centroavante que cheira a gol e foi o artilheiro do campeonato, mas fez o Fluminense perder mobilidade na frente.

Levir Culpi chegou ao Atlético Mineiro sob a desconfiança de estar ultrapassado. Peitou Ronaldinho e outros “senadores” do time campeão sul-americano em 2013. Em campo, conseguiu o que Paulo Autuori tentou: atualizar algumas práticas dos tempos de Cuca, como o encaixe na marcação que prejudicava a compactação e investir em mais toque de bola e menos chuveirinhos para Jô.

Estreitando as linhas, tocando a bola em velocidade e sem um típico centroavante, o Galo ainda “doido”, mas agora mais inteligente, cumpriu grandes atuações, especialmente no título da Copa do Brasil. Com Guilherme, 4-1-4-1 móvel, com apenas um volante e nenhuma referência na frente. Sem o meia criativo, a entrada de um volante e o avanço de Dátolo, mudando o sistema para 4-2-3-1, ainda com muita rotação. Mas sem alterar o estilo que encantou o país nos últimos meses do ano.

Galo OLHO TÁTICO

Galo campeão da Copa do Brasil e de campanha digna no Brasileiro: sem Guilherme, o 4-2-3-1 de Levir Culpi com mobilidade, rapidez e compactação.

Galo campeão da Copa do Brasil e de campanha digna no Brasileiro: sem Guilherme, o 4-2-3-1 de Levir Culpi com mobilidade, rapidez e compactação.

Reta final que puniu Luiz Felipe Scolari em uma temporada que colou no treinador multicampeão a mancha irremovível da surra alemã no Mineirão. Felipão parecia ter aprendido ao armar o Grêmio que herdou de Enderson Moreira com mais força no meio-campo.

Ora no 4-1-4-1, ora no 4-2-3-1. Forte pela esquerda com Zé Roberto e Dudu, defesa menos vazada com apenas 24 gols sofridos. Sólido em grandes vitórias sobre o Flamengo no Maracanã e nos 4 a 1 sobre o Inter no Gre-Nal. Mas hesitante em momentos fundamentais, como na virada do Cruzeiro na Arena que jogou o tricolor gaúcho ladeira abaixo.

 GrêmioREPRODUÇÃO PFC

Flagrante da marcação organizada do Grêmio de Felipão nos 4 a 1 sobre o Internacional: defesa menos vazada que vacilou na reta final do campeonato.

Flagrante da marcação organizada do Grêmio de Felipão nos 4 a 1 sobre o Internacional: defesa menos vazada que vacilou na reta final do campeonato.

Atlético-PR, Flamengo e Figueirense evoluíram com novos treinadores: Claudinei Oliveira, Luxemburgo e Argel livraram as equipes da “confusão” e situaram no meio da tabela. Sensação de alívio maior que a frustração do Santos: investiu 42 milhões de reais em Leandro Damião, o mico do ano no país, e repatriou Robinho mais uma vez. Pouco além dos gols do promissor “Gabigol”.

Sport e Goiás de ótimos trabalhos táticos, dentro de suas possibilidades, de Eduardo Baptista, campeão pernambucano e da Copa do Nordeste, e Ricardo Drubscky e a ótima revelação Erik.

Chapecoense que demitiu Reinaldo Dal Pozzo, apostou em Celso Rodrigues, investiu em Jorginho e voltou ao interino para cumprir campanha digna com momentos espetaculares, como os 5 a 0 no Internacional, 4 a 1 sobre o Fluminense no Maracanã e vitória contra o São Paulo no Morumbi.

Coritiba penou com Celso Roth, oscilou com Marquinhos Santos e se recuperou com a seqüência final do ídolo Alex, jogando solto e mais avançado quando o time não tinha a bola. Despedida digna de um dos maiores jogadores da história do futebol nacional. Estilo único que também parece em extinção.

 AlexTRUMEDIA

Mapa de toques de Alex no Brasileiro 2014: muito talento, mas ocupando uma faixa de campo muito limitada – inviável em alto nível. Fica a saudade.

Brasil que testemunhou o rebaixamento de Vitória, Bahia, Botafogo e Criciúma. Times que acumularam equívocos na temporada. Principalmente Ney Franco, que começava a acertar o Vitória quando aceitou o convite do Flamengo em um contexto totalmente desfavorável e depois voltou ao clube baiano desacreditado. Desastre anunciado.

O Palmeiras de Dorival Júnior atuou num anacrônico 4-3-1-2 que dependia do apoio dos laterais e, principalmente, de Valdívia. Tanto que o chileno jogou nitidamente no sacrifício a rodada final, no empate com o Atlético Paranaense. Jogou futebol de rebaixado, mas quatro times caíram por ele.

 PalmeirasREPRODUÇÃO PFC

Saída de bola palmeirense com trio de volantes no meio e laterais João Pedro e Juninho prontos para se projetar à procura de Valdivia.

Saída de bola do Palmeiras de Dorival Jr. com trio de volantes no meio e laterais João Pedro e Juninho prontos para se projetar à procura de Valdivia. Anacrônico.

Mesmo com os oportunistas de sempre forçando um discurso positivo por conta das vitórias recentes da seleção de Dunga, o futebol brasileiro ainda lambe suas feridas e não deve esquecer o vexame em casa. Muito menos problemas que se arrastam sem solução, como calendário inchado com estaduais e os imperdoáveis jogos em datas FIFA. É hora de Bom Senso.

Em campo, segue vivendo o seu dilema: se a evolução tática diminui os espaços, a técnica fica sacrificada, embora não desvalorizada. Ainda assim, ver mais times se esforçando para jogar em 30 metros e atualizando conceitos já é um alento. A boa notícia do sofrido 2014 no país cinco vezes campeão mundial.

Que venha 2015 com dias melhores, apesar de tudo!

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