25 fatos contra as mentiras sobre o Muro de Berlim

Por Rafael Targino

Publicado em:

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/vasto-mundo/25-fatos-contra-mentiras-sobre-o-muro-de-berlim/

A queda do muro de Berlim, um marco do fim da Guerra Fria e símbolo do desmantelamento do bloco socialista do Leste europeu, completou 25 anos no último dia 9 de novembro. Conheça a se­guir 25 fatos sobre a barreira que dividiu a Alemanha por 28 anos:

 A Alemanha Oriental surgiu antes do Muro de Berlim: A Alema­nha Oriental – conhecida em português pela sigla RDA (DDR, em alemão) – sur­giu anos antes da construção do muro. Em 7 de outubro de 1949, o novo país foi fundado a partir dos territórios contro­lados pela União Soviética (após a divi­são feita ao fim da Segunda Guerra entre os vencedores). Um contraponto dire­to ao lado controlado por EUA, França e Reino Unido, que, em 16 de setembro do mesmo ano, arquitetavam a criação da República Federal da Alemanha (RFA, ou BRD, em alemão). No lado oriental, a capital era Berlim; no ocidental, Bonn.

 Mesmo com duas Alemanhas, Berlim continuava sem divisão fí­sica: A cidade foi dividida em quatro partes entre os vencedores da Segun­da Guerra: EUA, Reino Unido e França a Oeste, União Soviética, a Leste. Mes­mo após a criação das duas Alemanhas, havia certa liberdade de movimento en­tre as zonas, por mais que o controle (es­pecialmente de Leste a Oeste) tenha si­do aumentado gradativamente. O metrô, com várias linhas que iam de um lado a outro, circulava normalmente.

 Stalin tentou unificar as Ale­manhas: Em março de 1952, o então lí­der soviético, Josef Stalin, enviou uma proposta aparentemente boa para as forças capitalistas: tratado de paz e elei­ções livres em uma Alemanha reunifica­da. A condição era que o novo país não poderia entrar em nenhuma aliança mi­litar contra os antigos ocupantes. O en­tão chanceler alemão ocidental, Konrad Adenauer, recusou o plano, o que mui­tos historiadores veem hoje como um er­ro, já que poderia, em tese, ter evitado os 37 anos seguintes de divisão. Mas a pro­posta de Stalin tinha seus “poréns”: ela fazia com que a nova nação renunciasse a antigos territórios prussianos a Leste – o que tinha potencial para acabar com a força política de Adenauer.

 Stalin autorizou a criação de um “muro virtual”: Com a recusa de Adenauer, Stalin chamou a direção da Alemanha Oriental (notadamente Wal­ter Ulbricht, primeiro-secretário do Co­mitê Central do Partido Socialista Unifi­cado da Alemanha – SED, em alemão – e quem efetivamente mandava no país) para uma reunião em Moscou. O líder soviético deu dois conselhos: “organizar o próprio Estado” e “reforçar a proteção da fronteira” entre os dois países. Foi o suficiente: em 26 de maio de 1952, os lí­deres orientais fecharam a fronteira en­tre as zonas e estabeleceram perímetros máximos de circulação de estrangeiros dentro da área sob controle soviético – em uma espécie de “muro virtual”.

Alemanha Ocidental ganhou soberania no mesmo dia do fecha­mento da fronteira: No mesmo 26 de maio de 1952, um tratado dava sobera­nia (mesmo que relativa) à Alemanha Ocidental, permitindo que ela entrasse na Otan (Aliança do Tratado do Atlânti­co Norte) três anos depois

O lugar para fugir era… Ber­lim: A fronteira interna entre os dois países havia sido fechada, mas ir de um lado para o outro não era muito difícil: bastava viajar a Berlim. A cidade conti­nuava dividida, mas atravessar de uma zona a outra não era tão complicado. Is­so preocupava Ulbricht.

 

Morte de Stalin atrasou cons­trução: Em janeiro de 1953, Stalin ha­via acertado com Ulbricht a colocação de guardas na fronteira entre as zonas sovi­ética e dos outros ocupantes em Berlim. Segundo a historiadora Hope M. Harri­son, professora da George Washington University, no livro “Driving Soviets up the Wall”, os homens seriam colocados para “acabar com o acesso descontrola­do a Berlim Oriental a partir dos setores ocidentais” e, principalmente, vice-ver­sa. Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, uma das obras mais importan­tes sobre o tema, afirma que isso era, ba­sicamente, “a premissa de uma frontei­ra fortificada em Berlim”. Em 1º de mar­ço, no entanto, Stalin sofreu um derra­me, morrendo no dia 5. O novo governo soviético, então, engavetou os planos pa­ra a capital da RDA.

 Fugas para Berlim Ocidental ajudaram o governo da RDA a de­cidir pela barreira: Mesmo com con­troles cada vez mais rígidos, o núme­ro de pessoas que atravessavam da zo­na soviética para a zona controlada pe­los capitalistas só aumentava. Em maio de 1961 (ano da construção do muro), 17.791 haviam fugido para o Oeste; em junho, 19.198; só nas duas primeiras se­manas de julho, 12.578. Até o fechamen­to da fronteira, o número total supera­va 870 mil.

 “Ninguém pretende construir um muro”: Walter Ulbricht ficou fa­moso por essa frase, dita durante uma entrevista coletiva à imprensa em 15 de junho. Na conversa com os jornalistas, ele havia deixado claro que, assim que Berlim saísse do controle das forças de ocupação, o SED assumiria o controle de todas as rotas aéreas e terrestres que ti­vessem como origem ou destino a capital Oriental. Na entrevista, uma repórter do jornal Frankfurter Rundschau, da Ale­manha Ocidental, perguntou a UIbricht: “Em sua opinião, a criação de uma cida­de livre [no caso, Berlim sem ocupação] significa que a fronteira do Estado fica­rá no Portão de Brandemburgo?” O líder alemão oriental respondeu:

 “Depreendo de sua pergunta que exis­tem na Alemanha Ocidental pessoas que gostariam que mobilizássemos operá­rios da RDA para construir um muro. Não tenho conhecimento de qualquer intenção neste sentido. Os operários da construção civil em nosso país estão ocu­pados principalmente na construção de casas, e suas forças são completamente consumidas nesta tarefa. Ninguém pre­tende construir um muro”.

Barreira foi construída de um dia para o outro: 1 hora da manhã, 13 de agosto de 1961, domingo: sob o co­mando do então secretário de Seguran­ça do Comitê Central do SED e futuro lí­der da Alemanha Oriental, Erich Hone­cker, soldados foram posicionados a ca­da dois metros ao longo de toda a fron­teira interna de Berlim. Enquanto isso, outras tropas cercavam a parte ociden­tal com arame farpado e mais bloqueios. A iluminação nas ruas próximas foi des­ligada enquanto o trabalho era feito. Se­gundo o historiador Frederick Taylor, 68 dos 81 pontos de cruzamento entre as zonas soviética e as outras foram fecha­dos, além das 193 ruas que atravessavam as fronteiras. Linhas de metrô (U-Bahn) e de trem (S-Bahn) foram interrompi­das. Às 6h, Berlim amanhecia fisicamen­te dividida.

 Nem o prefeito de Berlim sa­bia do fechamento da fronteira: A construção da barreira física pegou todo mundo de surpresa: Washington, Lon­dres, Paris, Bonn e… o então prefeito de Berlim, Willy Brandt. No dia anterior, de forma quase premonitória, Brandt havia feito um discurso em Nuremberg, ao sul da Alemanha Ocidental, durante a cam­panha eleitoral para a chancelaria do país (cargo para o qual era candidato). O político disse, se referindo ao número de pessoas que fugiam da porção oriental: “Eles temem que as malhas da cortina de ferro se fechem definitivamente. Pois receiam ser encarcerados numa enorme prisão. Pois sentem a terrível angústia de que venham a ser esquecidos, descar­tados, sacrificados no altar da indiferen­ça e das oportunidades perdidas…”.

 Após o discurso, Brandt pe­gou um trem noturno para a cida­de de Kiel, ao norte: às 5h da manhã, ele foi acordado com uma mensagem ur­gente do chefe de gabinete: o Leste es­tava fechando a fronteira. O prefeito es­tava de volta a Berlim já na hora do ca­fé da manhã.

 EUA, França e Reino Uni­do evitaram confronto: Recebida até com certo alívio pelos Estados Uni­dos, a notícia da divisão da cidade pro­vocou menos reações das forças dos paí­ses capitalistas do que esperava o prefei­to Brandt. A cidade tinha um mandatá­rio, mas eram os comandantes milita­res das potências de ocupação que di­tavam os rumos. Brandt foi ao encontro da Kommandatura (como era chama­do o grupo, sem representante soviéti­co desde 1948) para discutir a situação e saiu decepcionado: por mais que eles es­tivessem solidários, só decidiram man­dar patrulhas adicionais para as frontei­ras após a reunião. Além disso, forças de segurança dos três países afastaram ber­linenses ocidentais que tentavam ajudar orientais a ultrapassar a recém-constru­ída barreira. Aconteceu, após a constru­ção, um reforço na presença de tropas em Berlim, mas não houve uma reação militar de nenhum membro da aliança.

 Muro dividiu ruas ao meio: Por conta da divisão estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, havia de­terminadas ruas em que a zona soviéti­ca, por exemplo, terminava literalmen­te no meio da pista. Com a construção da barreira física entre as áreas, vizinhos foram, de repente, separados e impedi­dos de atravessar de um lado para ou­tro. O caso da Bernauer Straße (rua Ber­nau), no bairro de Prenzlauer Berg, foi um dos mais notáveis: ela foi partida ao meio. Atualmente, no local há um me­morial do muro.

 Muro dividiu o metrô ao meio: Além de todos os problemas inerentes à divisão repentina de uma cidade, situa­ções curiosas acabaram sendo criadas. Como dividir o metrô, por exemplo? Ha­via linhas que saíam de Berlim Ociden­tal, entravam na RDA e voltavam para o setor dos outros aliados (a linha exis­te até hoje e liga o norte ao sudeste da ci­dade). A solução foi fechar as estações de Berlim Oriental sem interromper o tráfe­go de trens, o que provocou o surgimen­to de estações fantasmas, onde não ha­via parada. Elas eram fortemente vigia­das e protegidas até quanto a uma pos­sível fuga dos guardas que cuidavam do local. Algumas estações foram simples­mente muradas por dentro.

 Muro cercou bairros e criou “ilhas” capitalistas na Alemanha Oriental: A divisão entre as potências ocidentais e os soviéticos não se restrin­giu ao meio da cidade. Bairros mais afas­tados sob domínio dos países capitalis­tas foram praticamente cercados pelo Muro e viraram ilhas dentro do territó­rio oriental. No total, foram criados 12 enclaves. Um desses lugares é um paca­to bairro chamado Steinstücken (do ale­mão “pedaços de pedra”), onde hoje não moram mais do que 300 pessoas. Após uma troca de terras entre as duas Alema­nhas, foi aberta uma estradinha que liga­va a região a Berlim Ocidental – devida­mente margeada pelo muro.

 Número de mortos tentando atravessar muro até hoje é incer­to: Até hoje, pesquisadores não con­seguem fechar um número preciso de quantas pessoas tentaram atravessar o Muro e morreram, muito porque o go­verno da RDA (que chamava a barrei­ra de “muro de proteção antifascista”) evitava divulgar as mortes – que eram sempre um constrangimento no resto do mundo. Uma pesquisa da Universi­dade de Potsdam, em 2011, fala, no en­tanto, em 136 mortes causadas por ti­ros disparados por guardas da frontei­ra. Só que esse total já foi revisto: dois anos depois, o número subiu para 138.

 O caso mais famoso é o do jovem Pe­ter Fechter, que tentou atravessar o muro aos 18 anos, em agosto de 1962, junto a um amigo. Na hora em que os dois subiam a primeira barreira de ara­me farpado, os guardas começaram a atirar. Fechter foi baleado em uma ar­téria da perna e ficou sangrando e pe­dindo por ajuda até morrer. Ninguém, nem do lado ocidental, nem do orien­tal, foi ajudá-lo. Uma hora depois, o jo­vem faleceu e foi “recolhido”. O cons­trangimento provocado pelo caso – far­tamente fotografado – fez com que a RDA enfrentasse protestos e mudas­se as regras, autorizando “atendimento imediato” em casos semelhantes.

 O muro não era só um muro, mas pelo menos dois: Com o pas­sar dos anos, o muro foi se sofisticando. No final, havia, pelo menos, um muro de contenção, duas cercas, uma barrei­ra antiveículos, arames farpados e torres de observação. Essa área entre os muros ficou conhecida como “faixa da morte”: o objetivo era dificultar ao máximo a pas­sagem para o outro lado.

 Economia ajuda a explicar a queda: A Alemanha Oriental entrou nos anos de 1980 ainda como grande potência do bloco socialista, mas com a economia desandando. Junte-se a is­so uma onda reformista, que se iniciou na Polônia, e podem-se ter algumas ra­zões para o fim da RDA. Um dos “cza­res” econômicos da Alemanha Orien­tal afirmava que, em 1989, se o padrão de vida da população não fosse reduzi­do em 30%, o país não conseguiria fe­char as contas do ano. O muro caiu an­tes, entretanto.

Um piquenique na Hungria tirou o primeiro tijolo do Muro de Berlim: Em agosto de 1989, Áustria e Hungria fizeram um piquenique exa­tamente na fronteira entre os dois paí­ses. Foi a oportunidade para que vários alemães orientais fugissem para o lado ocidental.

 Erro de comunicação provo­cou abertura surpresa da frontei­ra: Em 9 de novembro de 1989, o go­verno da RDA recém-empossado (com Egon Krenz no lugar de Erich Honecker no comando do país) tentava controlar as seguidas manifestações por mudan­ça. Em uma coletiva de imprensa, o en­tão porta-voz do governo, Günter Scha­bowski, anunciou que qualquer cidadão poderia atravessar a fronteira da Alema­nha Oriental sem autorização prévia. O anúncio foi tão surpreendente que, efe­tivamente, os jornalistas que estavam no local não entenderam o que estava acontecendo e, de acordo com Taylor, precisaram fazer uma pausa para um café para pensar. A questão é que a me­dida só valeria a partir do dia seguinte — o que Schabowski não sabia. Ele acabou dizendo que a norma entraria em vigor imediatamente.

 Os jornalistas não sabiam o que fazer, mas, como a coletiva era transmitida ao vivo, a população entendeu bem o que estava acontecendo. Foi o suficiente pa­ra que uma multidão, antes mesmo do término da entrevista, já se aglomerasse em frente aos postos de controle em Ber­lim. Sem conseguir segurar o público, os guardas liberaram a passagem. Era o fim do muro.

 Líderes mundiais não espe­ravam abertura: Por mais que uma série de protestos já tomasse a Alema­nha Oriental (em especial nas cidades de Berlim Oriental e Leipzig), não se acreditava que a RDA tivesse as frontei­ras abertas.

No dia da queda, o chanceler da Ale­manha Ocidental, Helmut Kohl, nem em Bonn estava: o político participava de um jantar com o novo governo reformis­ta da Polônia em Varsóvia. Informado da situação, interrompeu o banquete e cor­reu para a Alemanha.

Muro dos anos 2000 teria barreiras de micro-ondas e senso­res sísmicos: O governo da Alemanha Oriental acreditava que o muro iria du­rar ainda muito tempo. Por isso, sempre tentava melhorá-lo. No começo de 1989, Berlim Oriental começou a estudar avanços tecnológicos para a construção, como barreiras de micro-ondas e senso­res sísmicos que detectariam movimen­tos. A ideia era tornar o muro mais “hu­mano” e diminuir os casos fatais entre os que tentavam atravessar o obstáculo.

Um quarto de século depois, muro virtual ainda existe: A Ale­manha virou um só país em 1990, mas, até hoje, sente os efeitos da reunifica­ção, em um processo que envolveu a transferência da capital de Berlim pa­ra Bonn. O que foi então comemorado, hoje, provoca sentimentos de nostal­gia entre os antigos moradores de cada um dos lados, criando uma espécie de “muro virtual”: seja nos estilos de cons­trução dos bairros (o modelo socialista domina a paisagem das cidades a Les­te), seja nos hábitos das pessoas. Is­so abriu margem para um preconceito de ambos os lados: os “Ossis” (ao ale­mão Ost, “Leste”) reclamam dos “Wes­sis” (de West, “Oeste”), que reclamam dos “Ossis”.

 Nas comemorações dos 25 anos, muro foi “reerguido”: Desde o começo do ano, a Alemanha lembra o muro com diversos eventos, mas o ápi­ce foi no dia 7 de novembro: a barrei­ra foi “reconstruída” com balões de luz. A instalação percorreu 15 km do traje­to onde ficava o muro. (Opera Mundi)

 

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