O exoesqueleto do Hexa

José Miguel Wisnik

Quem não entendeu o próprio fracasso não entende mais nada

Um prédio com falhas estruturais pode parecer normal e vir abaixo em alguns minutos. Os pontos inequivocamente fortes do time do Brasil na Copa do Mundo, no que tinha de promissor e de periclitante, eram o seu atacante excepcional e uma excelente e entrosada dupla de zaga, estando esses três jogadores muito acima do rendimento dos demais. Para ligá-los faltava a espinha dorsal do meio de campo, suprida ou pelos lançamentos de Thiago Silva e David Luiz ou, como disse Antonio Prata, pelo exoesqueleto do delírio nacional, com hino, apelos midiáticos e patriotadas publicitárias.

De fato, é como se, desde o rasurado pontapé inicial do projeto de Miguel Nicolelis, o sintoma estivesse, literal ou metaforicamente, nalguma deficiência da coluna vertebral. Por violenta e fatídica ironia, Neymar veio a sofrer uma fratura na vértebra, e o valoroso zagueiro capitão, por uma tolice de grandes consequências, foi suspenso com um segundo cartão amarelo. O voluntarismo turrão de Scolari quis ver nesse segundo fato uma injustiça conspiratória, num sinal da sua recusa geral a ver os fatos. Mas a seleção brasileira entrava contra a Alemanha sem a sua dupla de zaga, tendo David Luiz que se deslocar da posição habitual para compatibilizar-se com a presença de Dante, e sem o seu único atacante efetivo, representante da graça e do corpo espiritual do futebol brasileiro.

Não quero reduzir a catástrofe que se seguiu a esses aspectos técnicos. Mas eles não deixam de ser fundantes (e afundantes). Como pôde a seleção brasileira pentacampeã do mundo derreter-se de repente, diante do primeiro adversário realmente forte, sem esquecermos que desprovida de suas peças fundamentais? Catástrofe é o nome que podemos dar às proporções inusitadas desse acidente, mas também à espécie de precipitação estrutural que fez com que a falha no miolo da zaga, evidenciada no primeiro gol, desvelando surdamente que o time agora estava nu, sem meio-campo, sem ataque e com a defesa baleada, se transmitisse rapidamente do plano tático ao técnico e daí ao psicológico, engolfando tudo. O tenso equilíbrio desses jogos é cruel e matador, o time da Alemanha tinha recursos de sobra para deitar e rolar sobre os vacilos em cascata do Brasil, que tinha motivos de sobra para perder, além disso, para os seus próprios fantasmas.

O nome secreto do principal fantasma é D. Sebastião. Desculpem o salto mortal súbito, mas é o mínimo que pede o acontecimento. Como é sabido, o jovem rei português desapareceu no deserto africano em luta com os mouros, na Batalha de Alcácer Quibir, em 1578. Alimentados e realimentados por um messianismo de raiz, que os via desde sempre como predestinados, os portugueses passaram a acreditar na volta redentora de D. Sebastião, ao longo dos séculos. Consta, no entanto, que na própria batalha fatídica a que se arremeteu, o rei foi tomado de uma estranha abulia que parecia impedi-lo de lutar. O sebastianismo é a crença na vinda daquele que se foi, o Esperado. De tanto ser o Esperado que nunca deixaria de ser, no passado e no futuro, D. Sebastião implodiu psiquicamente durante a batalha.

O futebol brasileiro já conheceu no mínimo três batalhas de Alcácer Quibir: a final da Copa de 1950, a final da Copa de 1998 e a semifinal da Copa de 2014. Mais do que um acidente ou uma coincidência, três casos já configuram uma estrutura. Primeiro, porque se espera que o Brasil encarne o futebol e que o futebol encarne o Brasil, como prometera a Copa de 1938. Em 1950, tudo está pronto para a chegada do Esperado, mas o Esperado não vem, em vez dele vem o Outro, o adversário, excessiva e inesperadamente real. Como Brasil não é para principiantes, no entanto, D. Sebastião faz sua aparição epifânica em 1958 e 1962, dá sua desaparecida clássica em 1966 e retorna triunfalmente em 1970.

Conquistadas cinco Copas, e sem entrar no caso de 1998, nem por isso a síndrome desaparece, muito ao contrário. Já foi dito, com razão, que Felipão foi chamado como uma espécie de D. Sebastião para converter magicamente o título de 2002 em Hexa. O espectro de D. Sebastião está presente toda vez que Galvão Bueno pronuncia a palavra Hexa, assim como quando o Hexa é transferido automaticamente para 2018 sem nenhuma parada do pensamento. Quando David Luiz chora a promessa frustrada de felicidade ao povo brasileiro, e quando Neymar sai misteriosamente ferido e ungido com a aura do Esperado.

O sebastianismo doentio é a crença na volta da entidade Futebol Brasileiro, como se este estivesse sempre pronto a encarnar. Time de futebol nenhum está sempre pronto, quanto mais diante das dramáticas mudanças ocorridas na última década, sem trabalho, análise e atualização. Polarizado pelo passado e por um futuro de miragem, o presente contém o buraco negro em que colapsa inconscientemente a seleção, quando fracassa o seu papel messiânico.

O placar de 7 x 1 acusa agora a falência dessa forma mental. É ela que sustenta o anacronismo das instituições esclerosadas, CBF, comissão técnica, oportunismos políticos de todos os lados, Rede Globo, euforia publicitária, mais aquela parte da torcida que só quer ser contemplada com o gozo. Tudo isso ainda é 1950, só que sem a mesma inocência trágica. As primeiras especulações sobre o novo técnico, fazendo girar o mesmo esquema, me dão náusea. Quem não entendeu o próprio fracasso não entende mais nada.

http://oglobo.globo.com/cultura/o-exoesqueleto-do-hexa-13227964

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