Tiranicídio com a mão do gato

 

Wálter Fanganiello Maierovitch

 O tomismo continua a dar suporte às potências interessadas em eliminar desafetos ou mudar cenários geopolíticos, geoestratégicos e geoeconômicos. Só para lembrar, Tomás de Aquino, no século XIII, sustentou que assim como era lícito ao médico amputar um membro infeccionado para salvar o corpo humano, era igualmente válido ao príncipe matar uma pessoa nociva ao organismo social.

Com efeito Saddam Hussein, ao ser tirado do buraco em Al Oja, respirou aliviado quando percebeu a captura por norte-americanos. Ele sabia que seria liquidado sumariamente caso tivesse sido encontrado pelos inimigos internos que apoiavam os invasores do Iraque. O ex-raís só não esperava por um arremedo de julgamento preparado por George W. Bush, com os juizes se-lecionados para condená-lo à morte por enforcamento. A propósito, um membro do fanático grupo xiita de Moqtada ai Sadr chegou a ingressar na sua cela para mostrar a corda que seria usada no enforcamento, consumado em 30 de dezembro de 2006.

 Essa farsa só não foi tão grosseira quanto à imposta ao tirano romeno Nicolae Ceausescu e à sua tirânica esposa Helena: o casal romeno foi preso, julgado e morto em poucas horas por ordem de um tribunal aã hoc.

 O presidente Barack Obama continuou a mesma linha tomista de Bush, mas sem farsas processuais. Assim, Obama concedeu licença para matar Bin Laden, ainda que não tenha apresentado qualquer resistência. Ao invocar o estado de guerra contra o terror, a ordem para matar acabou cumprida por 12 supermilitares da seleta Navy Seals.

Com relação a Muammar Kaddaf i, que nos 42 anos de poder vestiu figurinos ideológicos diversos nas relações internacionais depois de liderar o golpe militar de derrubada, em agosto de 1969, do rei Idris-al-Senussi, esperava-se que fosse abandonada a linha tomista. Havia a limitativa Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, e o Tribunal Penal Internacional (TPI) tinha decretado a prisão preventiva, assumindo a competência jurisdicional para julgar o tirano líbio e os filhos envolvidos em crimes contra a humanidade. O TPI, frise-se, não está legitimado a aplicar pena de morte e tem de observar as garantias civilizadas da ampla defesa e do contraditório.

A eliminação de Kaddafi na quinta-feira 20 deixou odor de armação concebida pela forças da Otan, que assumiram o comando e a coordenação das operações em 13 de março. Nos dias 18 e 19 de outubro, o comando da Otan, em desrespeito ‘ flagrante à Resolução 1973, determinou um intenso bombardeio focado no denominado “quarteirão 2”, localizado numa i faixa de 2,5 quilômetros de largura, no litoral de Sirte.

Nesse lugar, segundo os serviços de inteligência da França, estava Kaddafi e o filho Mutassim, de 34 anos, ex-chefe da Força de Segurança Nacional. Com o pesado e centrado bombardeio, e a falta de água, víveres e medicamentos, até o mais bronco dos recrutas poderia prever que Kaddafi abandonaria o tal “quarteirão 2”, com a usual tática de deslocamento em comboio de uma dezena de velozes veículos automotores.

Um drone norte-americano e três aviões Mirage aguardavam pela fuga e focaram as rajadas em dois veículos. Em um deles, um Toyota verde, estava Kaddafi, que a Otan afirmava falsamente não “caçar”. A ação militar aérea cumpriu a meta de interromper o deslocamento e, aí, os rebeldes capturaram o ex-raís e o filho com a maior das facilidades. Coube a um menor de idade, irresponsável criminalmente, realizar o disparo mortal. Em outras palavras, Kaddafi acabou entregue de bandeja aos rebeldes que o aguardavam.

Quanto ao delfim Saif al-lslam, que teve a sua tese de doutoramento britânico revisada pelo então premier Tony Blair, encontrava-se em lugar diverso. Há notícia de que estaria disposto a se entregar ao TPI num esquema de delações premiadas.

Saif, sob proteção da tribo Qadafi, interessa vivo à França, EUA e Inglaterra. Ele poderá revelar alguns segredos. Por exemplo, o papel de Kaddafi no atentado de Lockerbie (270 mortes), na Escócia, ou na ação terrorista contra militares americanos em uma discoteca em Berlim. Mais ainda, sobre a morte da policia] britânica Yvonne Fletches, alvejada por disparo saído da janela da embaixada da Líbia, ou a derrubada de um avião de passageiros na ilha italiana de Ustica (81 mortos). E até o que estava por trás das prisões das enfermeiras búlgaras acusadas falsamente de inocular o vírus HIV em líbios recém-nascidos.

No momento, cinco grupos disputam o poder: 1. Os nacionalistas de Suleiman Mahmoud. 2. Os progressistas de Mahmoud Jibril e Ali Tarhouni (atual ministro do Petróleo). 3. Os islamitas do combatente Abdul Hakim e do religioso Ali Salibi. 4. Os guerreiros berberes das montanhas de Jabel-Nafusa que tomaram Trípoli. 5. O grupo combatente de Misurata. Para se ter uma ideia sobre os dis-sensos, os islamitas seguem o modelo da Irmandade Muçulmana e querem controlar o petróleo, que dava poder e força a u m sacripanta do porte de Kaddafi.

Fonte

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