O futuro do kirchnerismo

 GIANNI CARTA

31/10/2011

NA QUINTA-FEIRA 27, Cristina Fernández de Kirchner, a presidenta reeleita ao cargo máximo quatro dias antes, comemorou o primeiro aniversário da morte do marido sempre, como durante a campanha, num tom entre o triste e o festivo. Ao vencer a disputa presidencial, Cristina declarou: “Quero agradecer também a alguém que já não pode mais me ligar, mas ele é o grande fundador da vitória desta noite”.

 Atos para celebrar o falecimento de Néstor Kirchner, presidente de 2003 a 2007, não escassearam: uma missa, uma rádio inaugurada e uma manifestação realizada na Praça de Maio, em Buenos Aires. Pela praça desfilaram mineiros kirchneristas com uma estátua de bronze do falecido. A estátua de 2,40 metros será entronizada a 3,5 mil quilómetros da capital, em Rio Turbio, vilarejo na Patagônia, região onde nasceu o ex-presidente. Igualmente simbólica foi a inauguração, também na quinta, do mausoléu de 600 metros quadrados de Néstor Kirchner, avaliado em milhões de pesos. O mausoléu impõe-se em um modesto cemitério de Rio Gallegos, cidade natal do ex-presidente, também na Patagônia.

 O kirchnerismo vive, mas agora sob a tutela de Cristina. E para que o movimento continue é preciso construí-lo e reconstruí-lo. Uma fonte, professora de Direito da Universidade de Buenos Aires que prefere o anonimato, é crítica em relação ao uso da presidenta da imagem do marido morto. “Ela usa um pieguismo do mais baixo nível possível para seduzir o povo.” Cristina, sempre vestida de negro, tem, porém, seus méritos como política. Carismática e exímia oradora, foi deputada, senadora e já cumpriu um mandato na Casa Rosada. Aos 58 anos, venceu o pleito presidencial com 54% dos votos no comando da Frente pela Vitória, uma vertente do Partido Peronista. Desde 1983, ano em que a democracia se instalou na Argentina, ninguém obteve tantos votos. Mais: Cristina foi a primeira presidenta latino-americana a ser reeleita.

 O segundo colocado, com meros 17% dos votos, responde por Hermes Binner, socialista e governador de Santa Fé. Carisma zero. Cerca de 80% dos 29 milhões de argentinos registrados votaram para eleger presidente, vice-presidente, metade da Câmara dos Deputados, um terço do Senado e governadores. Nas duas câmaras parlamentares Cristina obteve maioria.

 Como explicar o sucesso “contundente” de Cristina, como martela a mídia argentina? Em um país alheio a um sistema estruturado de partidos políticos, “a oposição mostrou-se incapaz de forjar alianças e encontrou-se fragmentada”, opina Adrian Ventura, articulista do diário conservador La Nación, para Car-taCapital. Por essas e outras, o povo vota no indivíduo, não em legendas ou políticos com programas bem delineados.

 

E em um país onde é impossível falar de política sem se posicionar em relação ao legado de Juan Perón, no qual Evita, a dançarina de cabaré e mulher de Perón, é até hoje idolatrada, e Maradona é “definitivamente” superior a Pele, Cristina é a nova musa. Para muitos, é a nova Evita Perón. De fato, o próprio peronismo é útil para o kirchnerismo de Cristina. O motivo? Pessoas de todas as inclinações políticas podem pertencer ao peronismo/ kirchnerismo. “O peronismo é um pêndulo a oscilar entre a direita e a esquerda”, diz Alfredo Catoira, diretor de informática da Corte Suprema de Justiça.

Outro motivo a levar Cristina à vitória, como é sempre o caso, foi o crescimento do PIB de 9,2% em 2010. Na sua campanha eleitoral, a presidenta prometeu aumentar os salários, criar empregos e, entre outros, reduzir a pobreza. Em miúdos, usou o boom econômico em proveito do povo. Ademais, a partir de sua eleição, em 2007, lidou com questões como abusos de direitos humanos e legalizou casamentos do mesmo sexo. Forjou elos com sindicatos. Como o marido, promoveu o kirchnerismo.

Sobre o motivo de ter votado em Cristina, Catoira responde: “Votei na sua política social, que tem crédito. Cristina construiu novos hospitais, escolas, cientistas argentinos no exterior estão voltando para este país.” Ex-militante da Juventude Peronista, Catoira acrescenta: “Perón dizia que a realidade é a verdade, e quando os Kirchner chegaram ao poder a economia deste país era um desastre”.

Eleito em 2003, Néstor Kirchner definiu a economia como um “inferno”. O índice de pobreza era de 58%, o nível de desemprego superava os 20%, o PIB despencava. O país havia se tornado um pária dos mercados financeiros internacionais desde 2001, quando o governo anunciou o calote de cerca de 100 bilhões de dólares, o maior da história.

O plano de reestruturação da economia argentina foi obra do ministro da Economia, Roberto Lavagna, sob o comando do presidente Eduardo Duhalde, antecessor de Néstor Kirchner. De qualquer forma, os Kirchner conseguiram melhorar o horizonte econômico do país. E muito. Além do crescimento contínuo do PIB, nos últimos três anos o desemprego caiu de 10% para 7%.

Contudo, a inflação encontra-se em altíssimos patamares. Oficialmente, ela seria de 8%. Mas para numerosos economistas estaria na casa dos 25%. “O governo de Cristina claramente maquia os indicadores econômicos”, afirma Ventura, do La Nación. Uni taxista, manjada fonte de correspondentes, concordou: “Basta ir ao supermercado e ver como os preços sobem em alta velocidade”.

Graças aos altos preços das commodities e à estável economia brasileira, esta responsável por 25% das exportações argentinas, a economia vai de vento em popa. Essa dependência do Brasil, que por sua vez também depende da China, explica o fato de o primeiro nome mencionado pela presidenta ter sido o de sua homóloga brasileira. “Quero agradecer o telefonema solidário, amigo, fraternal, regional de Dilma Rousseff, a companheira Dilma.” Resumiu Alcadio Ona, do diário El Clarín: “Dançamos ao ritmo da soja e da economia brasileira”.

O governo usa subsídios para combater a inflação e manter o fluxo de despesas públicas. “Podemos dizer que a gestão econômica dos Kirchner não teve um eixo central, mas o foco sempre esteve no curto prazo e houve poucas decisões pensadas no longo prazo”, avalia Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres.

Cristina, que dispõe de 48 bilhões de dólares em reservas, tem algum tempo para continuar a aumentar os gastos do governo. Mas, diante de uma crise global, a pergunta é: até quando?

 Fonte

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