E o mundo se move-Israel

Antonio Luiz M. C. Costa

SUCESSIVOS governos israelenses dedicaram o melhor de seus esforços a pressionar Washington, costurar alianças, intervir em países vizinhos e planejar sua defesa com base em vários pressupostos. Os Estados Unidos continuariam a superpotência militar e econômica decisiva. Enquanto sua mídia fosse simpática a Israel e seus políticos vulneráveis à pressão do lobby sionista, seu cortejo de satélites e aliados os acompanharia. E os árabes continuariam massas atrasadas e passivas, controladas por reis e ditadores. Contanto que estes fossem devidamente intimidados ou subornados e a superioridade militar fosse mantida, seus súditos poderiam ser desprezados.

 Mas o mundo para o qual essa estratégia foi planejada se desfaz desde a invasão do Iraque, pesadelo para Washington e oportunidade para o antigo satélite turco afirmar sua independência e para uma opinião pública árabe começar a se formar no rastro das ondas da Al-Jazira, independentemente das redes ocidentais e da propaganda oficial de seus governos.

 Com a humilhação das lideranças árabes laicas, a eleição palestina consagrou o Hamas, em vez de legitimar uma administração palestina dócil após a morte de Yasser Arafat. O fracasso da invasão do Líbano em 2006 fortaleceu o inimigo Hezbollah, afastou Israel da Turquia, único aliado no mundo muçulmano e abalou a reputação de competência de suas Forças Armadas e a imagem de Israel ante a maior parte do mundo. O erro foi repetido e agravado pelo bombardeio a Gaza na virada de 2008 para 2009, igualmente contraproducente e pela terceira vez com o ataque de maio de 2010 à flotilha humanitária dirigida ao mesmo reduto palestino. Pouco depois, arrancou a ofensiva diplomática palestina e em dezembro, o reconhecimento pelo Brasil do seu Estado com as fronteiras de 1967 abriu caminho para que quase todos os países sul-americanos (exceto a Colômbia) seguissem o seu exemplo.

 

Nada disso abalou o governo de Benjamin Netanyahu, atrevido a ponto de desafiar os EUA e acabar por obrigar o governo de Barack Obama a se conformar com sua recusa a deter a colonização da Cisjordânia e, na prática, conduzir qualquer negociação significativa.

Mas a Primavera Árabe pegou Tel-Aviv desprevenida, no momento em que menos se importava com os vizinhos. Caíram em semanas dois dos ditadores árabes mais amigáveis para com Israel, os da Tunísia e do Egito – e os líderes que pretendem sucedê-los sentem-se obrigados a ouvir as massas, inclusive em sua indignação contra Israel. O novo governo militar do Cairo reabriu a fronteira de Gaza, encerrando o longo isolamento de seu povo e do Hamas, e suspendeu as exportações de gás natural para Israel, cobrando a renegociação dos contratos. Amr Moussa, ex-chance- ler de Mubarak e candidato favorito à Presidência, promete ser menos “ameno” com Israel do que seu antigo chefe.

O rei da Jordânia, único país árabe amigável nas fronteiras de Israel, também foi posto em xeque por manifestações de massa, que o forçaram a realizar uma reforma ministerial. Em 14 de junho, depois que sua comitiva foi apedrejada por jovens de Tafila, o rei anunciou pela tevê que poderá haver um governo parlamentar eleito em dois ou três anos, se os 33 partidos do país aceitarem uma reforma partidária que os reduza a três grupos.

Seria de se imaginar que Israel visse com bons olhos a possibilidade de se dar um fim ao regime baathista da Síria, amigo do Ira, do Hezbollah e do Hamas. Mesmo em meio a seus apertos, o governo de Bashar al-Assad encontrou tempo para incomodar Israel. Estimulou refugiados palestinos na Síria a se manifestarem na fronteira do Golã, território sírio ocupado por Israel, no aniversário da Guerra dos Seis Dias (5 de junho). O exército israelense respondeu a bala, matou 23 e feriu 350 segundo as fontes árabes – e distraindo o mundo dos massacres de rebeldes pelo próprio governo sírio, o que pode ter sido um dos propósitos de Damasco.

Se foi, adiantou por poucas horas. No dia seguinte, 120 policiais sírios foram mortos numa rebelião na cidade de Jisr Ash-Shughur. O cerco e a retomada violenta da cidade provocou a fuga de milhares para a Turquia (8,5 mil até 15 de junho) e manteve a revolta síria sob os holofotes, apesar da escassez de informação confiável de dentro do país. Segundo relatório da ONU, baseada no testemunho dos refugiados, 1,1 mil civis foram mortos e 10 mil presos desde os protestos, mas nem seus observadores, nem jornalistas independentes estão autorizados a entrar no país. A Liga Árabe aprovou uma censura à repressão síria, apesar de a tentativa de fazer o mesmo no Conselho de Segurança ter sido vetada pela Rússia e pela China.

 Mas até os apuros do regime sírio causam mais apreensão do que alegria em Tel-Aviv. Como assinalou o editorial do Haaretz de 10 de junho, o Ocidente não tem substituto óbvio para os baathistas na Síria (há fundamentalistas, esquerdistas e nacionalistas na oposição, mas nenhuma liderança clara) e prefere limitar-se a uma cautelosa pressão por reformas e sanções limitadas, enquanto torce para que Assad consiga permanecer no poder e satisfazer às demandas populares. Em 2003 a Síria era um dos “estados delinquentes”, candidata aproxima “mudança de regime” após Saddam Hussein, mas hoje é considerada uma força capaz de ajudar os EUA a combater a Al-Qaeda no Iraque e de conter a influência iraniana e o Hezbollah no Líbano.

Um Hezbollah que, por sinal, tornou-se em 13 de junho, com a posse do novo governo libanês de seu aliado Najib Mika-ti, a principal força política do país, mesmo se detém apenas 2 dos 30 ministros e 12 dos 128 deputados. Graças, em boa parte, ao prestígio político e militar obtido com a resistência bem-sucedida aos israelenses em 2006 e às tentativas fracassadas dos ex-primeiros-ministros Fouad Siniora e Saad Hariri de desarticulá-lo.

Igualmente perplexos no início, os palestinos reagiram mais rapidamente que Israel à mudança de conjuntura. O Hamas, no comando de Gaza, e a Fatah, na Cisjordânia, deixaram de lado suas diferenças e chegaram a um acordo patrocinado pelo Cairo para reunificar a Autoridade Palestina, enquanto esta se movimenta para obter o reconhecimento de seu Estado e fronteiras pela Assembleia Geral da ONU em setembro. Encontram apoio não só nos países árabes e nos BRICS, como também na União Europeia, cujos integrantes têm promovido o status diplomático dos representantes palestinos e apoiado sua independência, com Jerusalém Oriental como capital.

Dificilmente os palestinos conseguirão tão logo seu objetivo. Os Estados Unidos recusam apoio e devem vetar seu reconhecimento pela ONU, mesmo que seu voto e o de Israel tenham de ser os únicos contrários. Mas ao menos sabem o que querem, têm uma estratégia viável e agora – ao que tudo indica – o tempo está a seu lado. Se Israel deixa de ser a “única democracia do Oriente Médio”, as massas árabes politizadas invadem o palco da política e seus aliados na região mudam de lado, o custo político e financeiro de sustentar a teimosia de Tel-Aviv pode ficar alto demais para um Ocidente em crise econômica prolongada.

Mesmo assim, Netanyahu continua incapaz de responder à nova situação. Se é possível dizer que tomou conheci- mento dos movimentos tectônicos à sua volta, é menos por palavras e ações do que por silêncios e inações – por exemplo, a falta de resposta à abertura unilateral da fronteira de Gaza, embora isso viole os acordos de 1979 pelos quais Israel devolveu o Sinai ao Egito.

O governo Netanyahu não tem feito mais que tentar pisar no freio da história. Se antes recusava negociar com a Autoridade Palestina porque a separação de Gaza lhe tirara representatividade, agora diz que não negociará com o governo unificado porque inclui uma “organiza- cão terrorista” (mesmo se o Hamas abre mão de cargos no ministério) e sua reação indignada à sugestão de Obama de negociar a partir das fronteiras de 1967 mostra que continua aferrado ao status quo, sem intenção de fazer concessões.

As bases fanatizadas da direita israelense o impedem de recuar. Pensam em termos de direito de conquista, como colonos do passado, sem admitir que a ideia de superioridade dos povos europeus e de destino manifesto pertencem ao passado. Atacam vizinhos palestinos e suas mesquitas em protesto contra qualquer tentativa de limitar colônias consideradas ilegais pelo próprio governo Netanyahu. O Parlamento israelense vota leis discriminatórias contra seus cidadãos árabes, que permitem cassar sua cidadania e excluí-los de bairros judeus e busca limitar o direito de dissidência dos próprios judeus, punindo qualquer um que chame a boicotes contra Israel (incluindo qualquer empresa e assentamento) e combatendo professores “antissionistas” nas universidades.

Robert Grenier, ex-chefe das operações de contraterrorismo da CIA (demitido em 2006, segundo a imprensa, por se opor à tortura de suspeitos), fez o favor de decodificar na Al-Jazira a linguagem diplomática de Obama no discurso de 19 de maio: “Por favor, não pensem que eu ou o meu país podemos salvá-los de vocês mesmos. Se seu sonho é um Estado judeu e democrático, vocês estão no caminho para a autodestruição”. Falta quem se disponha a ouvir.

Fonte

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