Mais um Ciclista Atropelado em São Paulo: Por uma Politização do Tempo

Wilson Roberto Vieira Ferreira

As imagens de ciclistas ativistas prestando luto e homenagem a mais uma vítima de atropelamento fatal no conflito bikes versus carros em São Paulo, tudo em meio a buzinas de motoristas irritados pelo grupo “atrapalhar” o fluxo do tráfego, são simbolicamente chocantes.  Sintomas de algo mais profundo: o culto da velocidade e domínio do tempo como fim em si mesmo, estilo de vida capaz de negar a morte e o luto. Portanto, cabe aos ciclistas  politizar o tempo!

 Após o atropelamento fatal do presidente da empresa Lorenzetti, Antonio Bertolucci, quando rumava de bicicleta para o seu local de trabalho, em São Paulo, ficaram duas imagens mostradas nos telejornais. A primeira, o capacete destroçado e a bicicleta retorcida, dando a dimensão da gravidade do atropelamento. E a segunda, a mais chocante pela brutalidade simbólica, a imagem das homenagens e luto de um grupo ciclistas ativistas no local do acidente, em meio as buzinas irritantemente insistentes de motoristas incomodados com a ocupação de parte da pista. Os motoristas nada mais enxergavam do que um grupo de desocupados prejudicando o tráfego que deveria ser mais veloz no local.

 Respeito? Luto? Nada se sobrepõem à necessidade de fluxo, escoamento, velocidade. Como já discutimos em postagem anterior (veja links abaixo) sobre o atropelamento serial de ciclistas ativistas em Porto Alegre, esse conflito carro versus bicicletas é sintoma de algo mais profundo, de um paradigma tecnológico que chamamos na oportunidade de “bomba tecnológica”.

 Nenhuma legislação ou projeto de ciclovias dará certo enquanto não politizarmos essa ideologia da Tecnologia: a velocidade e a lei do menor esforço como moralmente boas. Em outras palavras, a necessidade de correr contra o tempo (ou, pelo menos, o imaginário da corrida, já que cada vez mais não se consegue chegar de carro a parte alguma) como um valor intrinsecamente bom. Em última instância, devemos politizar o tempo.

 Mas que paradigma é esse onde a necessidade de velocidade nega o luto e a morte? O urbanista e pensador francês Paul Virilio desenvolve excelentes reflexões sobre essa conexão entre Tecnologia, Tempo e Velocidade, principalmente nos livros “Guerra Pura”, “A Máquina de Visão” e “Estética do Desaparecimento”. Para ele, todo desenvolvimento tecnológico está intimamente ligado com a logística da guerra. Por exemplo, a manipulação temporal através da aceleração e velocidade foi um instrumento logístico em regimes totalitários para criar desorientação e derrotar a vontade de prisioneiros. As práticas de extermínio em ritmo de linha de montagem nos campos de concentração nazistas, sirenes acionadas em todo momento para criar pânico e mobilização contínua e o constante e maquinal trabalho forçado impediam os processos psicológicos de lutificação e simbolização coletiva da morte.

 Dessa forma eram esvaziadas as lembranças, impedia-se qualquer esperança futura e todos eram forçados a viver momento por momento. Unicamente existia o presente; o futuro tornava-se não confiável, imprevisível. Perdendo todo o sentido temporal, as vítimas se tornavam totalmente manipuláveis, preparadas a aceitar cegamente as inquisidoras definições de passado e futuro.

 Ora, isso parece uma descrição da sensibilidade atual dos cidadãos (flagrantemente mostrada nas imagens das buzinas dos motoristas em protesto ao luto dos ciclistas que “atrapalhava” o trânsito) em ambientes altamente urbanos e tecnologizados marcados pela impositiva necessidade de correr contra o tempo e o carro como o seu principal instrumento e símbolo: o culto da velocidade.

 Prazos reproduzem-se a si mesmos. Pressões temporais geram a si mesmas. Uma pressa generalizada invade a sociedade humana, ansiedade produzida e furiosa, cujas razões ou finalidades foram esquecidas. Dessa maneira a velocidade distorce de forma significativa nossas relações com aqueles que não conseguem acompanhar, com aqueles que desafiam ficar para trás ou resistem ao imperativo do instante provocado pela velocidade ou com aqueles que frustram o nosso novo (e regressivo) direito pela absoluta imediaticidade.

Enquanto o ritmo da vida cotidiana acelera, enquanto a lógica da velocidade se torna mais e mais impositiva, encontramos a nós mesmos buscando mais velocidade não necessariamente porque temos alcançar um determinado destino em menos tempo, mas porque estamos simplesmente excitados com o próprio instante, porque estamos desenvolvendo tolerância pela velocidade e nos tornando viciados nos seus efeitos, o poder que ele nos concede, os prazeres viscerais que ele promete.

 Virilio vai denominar essa cultura estrutura pela velocidade e a necessidade de comprimir o tempo como “dromológica” (do grego “dromo” – corrida), isto é, a velocidade como um fim em si mesmo, como um uma droga excitante e, ao mesmo tempo, analgésica para não sentirmos o mal estar provocado pela existência do tempo.

 E isso não é meramente um fenômeno psicológico, mas estrutura a própria organização do trabalho e a produção da riqueza econômica.

 Por exemplo, com a crise das formas estabilizadas das relações de trabalho regidas por direitos trabalhistas passa a tomer lugar as modalidades flexíveis de trabalho desregulamentadas: atividades comissionadas, remunerações por resultados por projetos de curto prazo, ganhos por produtividade etc. O trabalho não é mais remunerado pela qualidade do produto, mas agora determinado pelo tempo do alcance de resultados por períodos curtos de tempo. Da remuneração do motoqueiro pela maior quantidade de entregas no menor tempo ao corretor de títulos e ações cuja diferença de segundos numa decisão pode ser a diferença entre a lucratividade e o prejuízo, a velocidade é o fator de sobrevivência.

 Seu salário não é baixo. A questão é de tempo: você leva 30 dias para receber aquele valor. Por isso a sobrevivência depende do domínio d a velocidade. Dinheiro não é valor nominal, é um valor probabilístico dado pela circulação veloz. A logística da velocidade é o verdadeiro poder nas sociedades dromológicas em que vivemos. Quanto mais lentos somos (em transporte e economicamente) menos poderosos na hierarquia.

 Nessa cultura dromológica a bicicleta somente pode significar ruído e distorção pela ambiguidade que a sua aparição cria num cenário de fluxo veloz. De um lado, por ser mais lenta (teoricamente) que os automóveis, representa uma posição inferior na hierarquia do poder logístico do domínio sobre o tempo. Mas, por outro lado, é objeto de desejo de consumo. Viver mais lento é um luxo nas mensagens publicitárias, um símbolo de conquista. O Banco Santander nos fala que dá mais tempo para o cliente “ser” graças a existência de gerentes de investimento disponíveis até a meia-noite. Para “ser” é necessário “ter” dinheiro aplicado. E para tê-lo é necessário, antes, ter vencido o tempo.

 Por isso a imagem do ciclista cria um misto de ressentimento e admiração. Parece que quem anda de bicicleta é alguém que pode se dar ao luxo de ser mais lento. Sua presença impertinente atrapalharia o fluxo do trânsito, dificultando os outros de alcançar a sua condição.

 Mas a bicicleta é o contrário disso: ela reivindica por outro paradigma tecnológico e outra relação com o tempo. Questiona a lei do menor esforço, a velocidade como algo bom e desejável e o tempo como um inimigo a ser submetido.

 Portanto, é urgente a necessidade de politização do tempo. Devemos cada vez mais problematizar essa chantagem do escoamento do tempo, da contagem regressiva, dos “dead lines”, das sucessivas profecias de juízos finais e apocalipses (o próximo é de 2012!). Questionarmos o porquê dessa sensação de que o tempo corre cada vez mais rápido, de que estranhamente já caminhamos para o final do ano! Questionarmos essa percepção de que o fluxo do tempo se assemelha à contagem de uma bomba relógio.

 Tudo o que sabemos é que esse fatalismo tecnológico (por exemplo, a informatização e os computadores cada vez mais nos sobrecarregam ao fazermos sozinhos o trabalho que, antes, era realizado por uma equipe) é a nova lógica do capital e da financeirização da economia. O Capital não se reproduz mais por acumulação, mas por circulação cada vez mais veloz.

 O capital foi o primeiro a politizar o tempo ao tornar o domínio temporal como um campo inédito de produção especulativa de riqueza (como os juros, remuneração do dinheiro sobre o tempo e risco). Cabe agora também o politizarmos fazendo o caminho inverso: forçando a desaceleração, impondo uma agenda que questione metas, índices, planos e projetos cuja essência seja a remuneração sobre a velocidade.

 Questionar todas as formas de avaliação de resultados no trabalho que impliquem em correr contra o tempo, colocar em xeque esse princípio de desempenho (eficiência, eficácia e performance) que satura a tal ponto nosso trabalho que até invade o lazer: depois de corrermos contra o tempo a semana inteira nos divertimos nos finais de semana com programas na TV onde vemos pessoas correndo contra o tempo em gincanas e desafios para ganhar um prêmio)

 O problema é que as formas flexíveis e velozes de trabalho enfraqueceram sindicatos, grupos classistas e a própria consciência de classe profissional que poderiam impor uma resistência organizada. Por meio da ideologia do empreendedorismo, do talento e da criatividade individual (ideologia jovem que alimenta a competitividade dentro de “dead lines” cada vez mais apertados, onde trabalho e vida pessoal se confundem no vício da adrenalina da velocidade), toda uma consciência classista de resistência foi desmobilizada.

 Por isso, a reivindicação da bicicleta como um legítimo meio de transporte, muito mais do que hobby ou lazer privado, é criar um contraponto, uma forma de resistência, onde a sua mera existência ou aparição de um veículo silencioso em duas rodas em ambientes públicos prove que é possível outra realidade, uma outra relação com o tempo e com as nossas próprias vidas. Tomar o tempo não como quantidade a ser dominada, mas qualidade a ser vivida.

 Portanto, politizemos já as bicicletas e o tempo!

Fonte

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