Rumo ao verão árabe

Antonio Luiz M. C Costa

13/06/2011

 QUATRO MESES apôs o início das revoltas árabes, estamos perto do fim da primavera propriamente dita no Hemisfério Norte, mas ainda soa prematuro pretender fazer um balanço da chamada Primavera Árabe. Nos países onde ela resultou em queda de ditaduras, ainda está para se definir que tipo de governo resultará das eventuais eleições, marcadas para setembro no Egito (Parlamento, seguido de eleição presidencial em outubro ou novembro) e recém-adiadas de julho para outubro na Tunísia (Assembleia Constituinte).

 Ao menos no Egito, é provável que movimentos islâmicos tenham a maioria no Legislativo, como reconhece o candidato (por ora) favorito à Presidência, o ex-chanceler Amr Moussa. Mesmo com o processo incompleto, a política externa do governo militar provisório, que esfriou relações com Israel e abriu a fronteira de Gaza, mostra que a opinião pública começa a ser levada mais em conta. Na Palestina, Líbano, Jordânia, Kuwait, Omã, Iraque, Arábia Saudita, Marrocos e Argélia, que tiveram protestos de importância variável, a combinação de repressão com reformas políticas parece ter comprado tempo: pelo menos alguns meses de calma, talvez anos. Mas onde o movimento degenerou em guerra civil ou confrontos em grande escala (Líbia, Bahrein, lêmen e Síria), a única certeza é que as coisas não podem continuar como estão. Para surpresa do Ocidente, Kaddafi recusou renunciar, deixou os rebeldes em apuros e teria esmagado a revolta se a Otan não interviesse cada vez mais abertamente na Líbia. Primeiro era um bloqueio aéreo, depois se tornou fornecimento de armas e cobertura aérea aos ataques rebeldes e agora França e Reino Unido assumem o papel principal e bombardeiam cidades sob controle do governo com aviões e helicópteros, matando civis às centenas com o objetivo declarado de derrubar o regime.

 A situação do regime de Trípoli parece desesperada. Seus fundos no exterior foram congelados ou transferidos para a oposição, a maioria de seus principais ministros desertou e os países que inicialmente criticaram a intervenção da Otan, inclusive Alemanha, China, Rússia e vários governos africanos, somaram-se aos apelos para que o ditador ceda e “saia”. Supostamente, ele está submetido a um embargo total no fornecimento de armas, enquanto as que possuía foram na maior parte destruídas pelos bombardeios. Mas Kaddafi ainda se vê como um herói anticolonial e tem suficiente apoio popular, ao menos na capital, para sustentar esse papel até a morte – que, salvo por um golpe de sorte da Otan, pode não vir antes da virtual destruição do país.

 Na prática, apesar de ofensivas e con-traofensivas, da brutalidade de ambas as partes e do crescimento da pressão internacional sobre o ditador, a situação no campo continua praticamente a mesma de fevereiro. Detalhes à parte, Kaddafi controla a metade ocidental do país, onde está a maioria da população, e os rebeldes a metade oriental, que detém a maior parte do petróleo. Talvez consiga receber armas através do deserto, com ajuda de simpatizantes entre os militares da Argélia ou os nómades do Saara.

 Por desagradável que pareça aos líderes europeus que assumiram a linha de frente nessa guerra, a situação é semelhante à invasão estadunidense do Iraque em 2003, salvo pela ausência, até agora, de tropas terrestres ocidentais. O mandato da ONU para “proteger civis” tornou-se mero pretexto para a agressiva intervenção de Nicolas Sarkozy e David Ca-meron em favor dos rebeldes e do controle europeu dos campos de petróleo líbios.

 Apesar de terem o apoio de funda-mentalistas islâmicos e chefes tribais, as lideranças mais importantes entre os rebeldes líbios são simpatizantes da monarquia deposta em 1969, aliada ao Ocidente e seus interesses petrolíferos, juntamente com os ex-integrantes do regime de Ka-ddafi mais comprometidos com sua virada pró-ocidental desde os anos 1990.

 Os governos europeus, principalmente a França, viram no apoio aos rebeldes líbios a oportunidade de conseguir vantagens políticas e económicas no país, enquanto se “redimiam” da história recente de apoio às ditaduras árabes, que inclui os detalhes vexatórios das férias na Tunísia, pagas por Zine el-Abidine Ben Ali, da ex-chanceler Michèle Alliot e das férias no Egito, pagas por Hosni Mubarak, do primeiro-ministro francês François Fillon e do presidente Sarkozy.

 Ao contrário da invasão do Iraque, essa intervenção não enfrentou maior resistência nos Parlamentos e ruas europeias -boa parte das oposições de esquerda caiu nas ilusões do humanitarismo guerreiro, mas nem por isso deixa de ser desastrada. Mas o recuo seria uma catástrofe política: só resta o desgaste gradual dos líderes ocidentais e a prolongada miséria dos líbios, até recentemente o povo com melhor qualidade de vida em toda a África.

 Na Síria, o grau de violência da repressão, com mais de mil mortos, incluindo 30 meninos que participaram de protestos -pelo menos um dos quais, Hamza, de 13 anos, parece ter sido torturado antes de morrer -, ultrapassa a brutalidade de Mubarak, talvez até a de Kaddafi, quando o Ocidente o ameaçou com o Tribunal Penal Internacional e começou a se movimentar para intervir. E a oposição (ou setores rebelados da polícia ou do Exército) parece ter iniciado uma luta armada, que, segundo o governo, emboscou e matou 120 agentes da repressão numa cidade do norte do país. O Exército prepara-se para retomar a cidade rebelada e milhares de sírios buscam refúgio na Turquia e no Líbano.

 Não se vê no Ocidente, porém, ansiedade por ação militar. Mesmo se o regime de Bashar al-Assad, um líder laico (apesar de pertencer à seita minoritária dos alauítas), mas aliado do Ira, do Hezbollah e do Ha-mas, é acusado de apoiar “organizações terroristas” desde bem antes da invasão do Iraque. Acontece que, nesse caso, não há petróleo e o Ocidente não vê lideranças “confiáveis” entre os manifestantes ou desertores do regime com os quais possa contar. Até agora, limitou-se a sanções contra lideranças individuais do governo sírio. Menos mal – e os rebeldes sírios, até agora, também preferem que as potências estrangeiras se abstenham de intervir.

Israel, apesar de tudo, prefere a continuação do regime de Assad, um incomodo conhecido e equacionado, à incerteza que possa emergir de suas ruínas. Mesmo se a Irmandade Muculmana não parece ser a força dominante nos protestos nem ter nesse país um papel tão importante quanto no Egito.

 Também neste caso, é difícil imaginar um acordo ou o retorno do status quo anterior. Será o fim de Assad – substituído por um regime possivelmente laico, mas dificilmente simpático a Israel ou o esmagamento temporário da oposição, com a manutenção do regime de forma instável e fragilizada. A repressão errou a mão e acirrou a oposição ao tentar sufocá-la. Assad não soube aproveitar as oportunidades de negociar, ou foi impedido de fa-zê-lo produtivamente pela velha-guarda do partido Baath, herdada do pai. Voltou atrás após prometer reformas sérias, depois anunciou meias medidas que, além de insuficientes e tardias, chegam esvaziadas de significado. Anuncia a suspensão do estado de emergência e a comutação de penas de antigos presos políticos, quando milhares de jovens são detidos e mortos.

 O lêmen tornou-se igualmente violento e ainda mais complicado. Em 22 de maio, Ali Saleh recusou na última hora e pela terceira vez (a primeira fora em 30 de abril) a saída relativamente digna proposta pelas monarquias conservadoras do Conselho de Cooperação do Golfo e aceita pela oposição – eleições em 30 dias, depois sua renúncia com a promessa de imunidade por seus abusos no governo – e se disse “pronto para a guerra civil”.

 Esta explodiu de fato nos dias seguintes, com dezenas de mortes por dia (ao menos 900 até o início de junho), enquanto EUA e França se limitaram a insistir polidamente para que Saleh voltasse a negociar. Enfrentam ali incertezas ainda mais complicadas que na Síria. Embora tenha importância estratégica, o lêmen é um país pobre, economicamente marginal, que o Ocidente mal conhece e onde nunca teve muita presença.

 O norte foi por mil anos independente e governado por uma dinastia de imãs xiitas da seita zaidi, majoritária no Alto lêmen (interior do norte), até 1962, quando um golpe republicano apoiado por Nasser e pelos baathistas da Síria e do Iraque, contando principalmente com tropas sunitas do litoral, iniciou uma guerra civil que durou oito anos. Os monarquistas tiveram o apoio da Arábia Saudita, do Reino Unido, do xá do Ira e de Israel, mas acabaram derrotados.

 Enquanto isso, em 1967, uma revolução marxista derrubava os xeques do sul do lêmen, até então protetorado britânico, para transformá-lo no único Estado socialista do mundo árabe. Até que, no fim dos anos 1980, ao perder o respaldo da decadente União Soviética, o sul optou pela unificação com o norte, consumada em 1990. Ali Saleh, líder do norte desde 1978, tornou-se presidente do país unificado. Entretanto, o regime de multipar-tidarismo e divisão de poder entre norte e sul funcionou mal e entrou em colapso em 1994, quando líderes socialistas do sul tentaram recuperar sua independência.

 Com auxílio de fundamentalis-tas wahabitas, Saleh reprimiu a revolta à custa de ao menos 7 mil vidas, na maioria do sul, anistiou a maioria dos sobreviventes e passou a governar com poderes quase absolutos e oposição apenas simbólica.

 Até que, a partir do atentado da Al-Qae-da ao destróier estadunidense USS Cole, em 2000, no porto iemenita de Aden, foi pressionado por Washington a colaborar com a “guerra ao terror”. A partir de 2002, os EUA iniciaram ataques secretos a supostos alvos fundamentalistas, que o governo do lêmen assumiu como se fossem de suas Forças Armadas. Em 2004, os xii-tas do extremo norte iniciaram uma série de rebeliões contra a influência crescente dos sunitas e dos sauditas no governo, que os acusa, sem provas, de serem instigados pelo Ira. Em 2007, protestos de aposentados e pensionistas não pagos reanimaram o movimento separatista do sul e a rebelião tomou conta de parte da região.

 Com Obama, os EUA voltaram a priori-zar a Al-Qaeda, que agora tinha no lêmen muitas das principais lideranças e muitos de seus ataques atingiram inocentes. Em dezembro de 2009, a morte de 35 mulheres e crianças em um suposto campo de treinamento de terroristas chamou a atenção da mídia para a escalada da “terceira frente” estadunidense no Oriente Médio. No ano seguinte, mísseis dos EUA mataram 40 supostos militantes e 200 civis, inclusive um vice-governador que negociava com os fundamentalistas, o que levantou sua tribo em peso contra o governo.

 Em janeiro de 2011, as notícias dos levantes na Tunísia puseram o país em pé de guerra, iniciando as primeiras manifestações. Foram relativamente pacíficas, apesar de praticamente todos possuírem armas nesse país, até que Saleh pediu guerra e a teve. A tribo xiita hashid rebelou-se e tomou parte da capital com o apoio de parte do Exército, enquanto fundamentalistas sunitas tomaram Zin-jibar, no sul. Em 3 de junho, um disparo atingiu o palácio durante um culto religioso e matou ou feriu vários integrantes do governo, inclusive Saleh. Apesar dos desmentidos iniciais, seus ferimentos foram graves e exigiram que o idoso presidente fosse levado à Arábia Saudita para uma delicada cirurgia e, no mínimo, algumas semanas de repouso absoluto.

 Dificilmente Saleh voltará, mas um final feliz para a crise é improvável. O filho, Ahmed, insiste em sucedê-lo. O principal comandante militar, o general Ali Mohsen al-Ahmar, está amotinado desde marco.

 Xiitas no norte, separatistas de esquerda no sul e fundamentalistas no sul e centro combatem o governo, mas falta uma agenda comum além do repúdio ao ditador.

 E não é um pequeno reino como o Bahrein, onde o levante pôde ser brutalmente esmagado por tropas sauditas, enquanto Obama, Sarkozy e Cameron assobiavam e olhavam para o lado, por assim dizer. O lêmen tem uma população tão grande quanto a própria Arábia Saudita e foi o “Vietnã” onde o exército de Nasser se desgastou e dissipou recursos militares que lhe fizeram muita falta na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Está se tornando outro Afeganistão.

 Fonte: Revista Carta Capital (15/06/2011)

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