Humala- Nada de carta aos peruanos

Eric Nepomuceno

 OLLANTA HUMALA convenceu-se de que havia conquistado a Presidência do Peru graças a um telefonema que recebeu pouco antes da meia-noite do domingo 5. Naquela altura, haviam sido oficialmente apurados 75% dos votos, e sua vantagem sobre a candidata da direita, Keiko Fujimori, filha dileta do ex-presidente e atual presidiário Alberto Fujimori, era ínfima: escassos 20.672 votos, num universo de 20 milhões de eleitores.

 Estava ele nessa tensão quando um assessor se aproximou com um celular na mão. Do outro lado da linha estava Sebastián Piñera, presidente do Chile, país que tem diferenças hist6ricas com o Peru, e um dos poucos mandatários latino-americanos que se assumem como de direita. Humala concluiu, aconteceu num átimo de segundo:”Se ele, que é ele, está ligando, acho que ganhei”.

 Depois houve outro telefonema: era Evo Morales, da esquerda mais clara e radical da América Latina, presidente da Bolívia, nação coma qual o Peru coleciona diferenças históricas. Foi quando Humala confirmou, comum sorriso:”Se ele também está ligando, é porque ganhei mesmo”.

 No meio da manhã da segunda-feira 6, Humala soube que sua vitória se deu por uma diferença pequena, pouco mais de 400 mil votos. A partir daí, sua primeira tarefa passou a ser formar rapidamente alianças no Congresso, para governar com maioria mínima ou minoria máxima. De saída, fechou com o partido do ex-presidente Alejandro Toledo, que o apoiou no segundo turno, e assim assegurou maioria no Congresso.

 Humala pôde notar, logo em seu primeiro dia de presidente eleito, que as ameaças do mercado financeiro e do grande capital não tinham sido mera jogada de campanha: na segunda 6, a Bolsa de Lima despencou 8,71% na abertura, forçando a suspensão das sessões, e terminou a jornada com perdas de 12,5%. O capital havia apostado, em peso e desbragadamente, na vitória de Keiko Fujimori. Foi o primeiro aviso dado ao eleito. Já na noite anterior, quando parecia visível que ele seria o ganhador, começou a ser armada essa reação do mercado financeiro. A queda abrupta do dia seguinte foi um aviso garrafal: estão todos de olho nos primeiros passos de Humala. Querem saber imediatamente quem será o ministro de Fazenda, quem vai presidir o Banco Central, quem será o ministro forte. Ou os postos-chave são ocupados por gente capaz de serenar esse ambiente ou Humala governará sob pressão permanente, embora, durante a campanha, ele tenha tentado se mostrar como a versão peruana de Lula, contra a imagem de aliado.do venezuelano Hugo Chávez.

 Quase de imediato começaram a circular nomes. A maior parte dos economistas que acompanharam Humala durante a campanha veio do governo de Toledo, e seriam nomes perfeitamente potáveis para a avidez do capital nacional e dos grandes grupos transnacionais, brasileiros inclusive, que têm fortes interesses no Peru. Mas, na quarta 8, três dias depois da vitória, Humala se negava a mencionar nomes específicos e preferia continuar a dizer que seu governo será de conciliação, formado por técnicos capazes. O novo presidente peruano manteve-se renitente em relação a indicar quem serão seus ministros da área, para não abrir flancos para esse tipo de pressão.

 Seja como for, a preocupação de bancos, grandes empresas e grandes transnacionais não é à toa. Humala teve sempre um discurso especialmente estatizante, defendendo uma grande interferência na economia, e é normal que desperte temores em quem nada de braçada numa bonança econômica que é das mais altas, se não a mais alta da América Latina. A média da expansão da economia peruana ao longo dos últimos dez anos sustentou-se nos 5% anuais, com picos espetaculares como o de 2010, quando o país cresceu 8,78%.

 Para esse segmento, o dos beneficiados de sempre, Humala só fará bom governos e mantiver o modelo neoliberal de seus dois antecessores e souber escolher direito uma equipe econômica formada por nomes que deem tranquilidade aos investidores. O historiador Eduardo Toche, um dos principais pesquisadores do Centro de Estudos para o Desenvolvimento, faz uma advertência clara: “Diante das pressões muito fortes da direita, Humala precisa ter grande habilidade para não ceder em suas propostas programáticas. Seria muito delicado se ele formasse um gabinete que fosse produto de concessões e não de negociações, e a negociação deve partir da premissa de que o vencedor é ele”. Para a imensa maioria dos analistas, se o novo presidente ceder às pressões e nomear ministros para contentar os mercados, se debilitará rapidamente.

 O problema é que o programa de Humala, mesmo muito distante do radicalismo de sua campanha de 2006, quando foi derrotado pelo ultraliberal Alan García, é incômodo para o mercado financeiro e para o grande capital. Passa por temas desagradáveis como uma reforma tributária que elevaria os impostos das grandes empresas e das grandes fortunas, o aumento do salário mínimo e mais direitos trabalhistas. Além do mais, apesar de ter reiterado o compromisso de manter a linha econômica central e respeitar rigorosamente a propriedade privada, afirmou pretender transformar o crescimento econômico em ferramenta de um amplo processo de inclusão social. Repetiu à exaustão que um país que cresce não se desenvolve se não distribuir renda. O Estado deve poder contar com instrumentos para intervir na economia, mas sem pôr em risco os investimentos nacionais e estrangeiros, mas insistindo na melhor distribuição. Ou seja, pode sobrar menos para os poucos que sempre levam muito, e sobrar um pouco para os muitos que nunca levam nada.

 A economia peruana, até agora, cresceu sólida e avara: não distribuiu riqueza. É bem verdade que, nos últimos dez anos, houve melhora. Mas 16% dos peruanos continuam miseráveis, outros 32% são extremamente pobres. Os fortes investimentos estrangeiros de nada serviram para mudar esse panorama. As diferenças sociais são gritantes.

 E, para culminar, a situação que o novo presidente enfrentará a partir de 28 de julho, quando toma posse, é tensa e complexa: agora mesmo, existem ao menos 230 conflitos sociais de maior ou menor grau em todo o país. Alguns são especialmente delicados, como aqueles que envolvem comunidades indígenas em litígio com grandes mineradoras transnacionais, acusadas de destroçar o meio ambiente, envenenar as águas e violar locais sagrados milenares.

 Humala, um militar da reserva do Exército peruano, 48 anos, casado com uma mulher bonita chamada Nadine e pai de três filhos, é o primeiro presidente de esquerda eleito democraticamente no Peru. Antes dele houve, é verdade, outro presidente declaradamente de esquerda: o general Juan Velasco Alvarado, que chegou ao poder em 1968 e lá ficou até 1975. Mas Alvarado chegou não pelas urnas, e sim por um golpe de Estado. Liderou uma revolução nacionalista que estatizou o petróleo, promoveu – ou tentou promover – uma reforma agrária formidável, lançou programas que pareciam decisivos para diminuir o secular e absoluto desfiladeiro social que separa os poucos peruanos bem aquinhoados da imensa maioria de pobres e miseráveis. Doente, foi deslocado para dar lugar a outro general, Francisco Morales Bermudes, que devolveu tudo ao seu devido lugar: os miseráveis continuaram miseráveis, os ricos continuaram ricos, e os sonhos de sete anos de um regime generoso voltaram para os desvãos da história.

 No quadro geopolítico da América do Sul, a vitória de Humala confirma o predomínio de governos que oscilam do centro-esquerda à esquerda mais radical. Resta saber onde ele vai se situar, se em seus primórdios radicais – que o aproximariam mais de governos como os de Chávez, Morales e do equatoriano Rafael Correa -, se no espaço que agora reivindica como o mais apropriado para chamar de seu – o do Brasil de Lula e Dilma e do Uruguai de José Mujica -, ou num espaço difuso entre uma e outra esquerda, como a Argentina da presidenta Cristina Kirchner ou o Paraguai de Fernando Lugo.

 O que se fez claro é que Humala sucederá uma fileira de governos que oscilaram entre o ultraliberalismo corrupto e violento de Alberto Fujimori, o neoliberalismo até certo ponto moderado de Alejandro Toledo, e o neoliberalismo exacerbado de Alan García, cujo governo atravessou tempestades de denúncias de corrupção. Vai ter de mudar muita coisa se realmente pretender promover transformações estruturais num sistema racista, elitista e profundamente injusto, mantido há séculos pela mesma parcela dos beneficiados, e incluir no mapa humano as grandes parcelas dos marginalizados de sempre.

 Agora, é esperar para ver. E lembrar uma frase de José Carlos Mariátegui, o maior pensador peruano, morto em1930. Disse ele, em seu livro Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana: “No Peru, tudo sempre parece um pouco nebuloso, um pouco confuso”. O panorama que Humana tem pela frente confirma, uma vez mais, que Mariátegui tinha um olhar de pontaria certeira.

Fonte: Revista Carta Capital(15/6/2011)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s