Líbia: o que está em jogo é a economia mundial

José Arbex Jr.: ‘Entre Kadafi e a OTAN, Líbia está na iminência de uma tragédia’

por Gabriel Brito e Valéria Nader, do Correio da Cidadania

 Com o agravamento da crise política da Líbia, que agora sofre intervenção militar da OTAN, sob o forte jugo dos EUA e dos principais países europeus, o Correio da Cidadania entrevistou o jornalista José Arbex Jr., para tratar do país de Kadafi e de toda a região, abalroada por revoltas populares a partir de diferentes valores estratégicos para os donos do mundo.

 Para o também professor da PUC e um dos editores da revista Caros Amigos, a situação líbia chegou a um estágio no qual resta a tragédia pela frente, pois qualquer dos lados em batalha não tem a mínima pretensão de atender à totalidade dos interesses do povo deste país. No que se refere ao excessivo foco do Ocidente e da mídia sobre a Líbia, enquanto outros países passam pela mesma onda de protestos e violência, registrando centenas de mortes, Arbex volta a atacar o imperialismo e suas ambições econômicas. Afinal, a Líbia é fundamental supridora de petróleo, especialmente para a Europa.

 De acordo com Arbex, acima de tudo está em jogo a situação da economia mundial, que pode sofrer outro duríssimo golpe em meio a uma já quase incontornável crise econômica. Com o prolongamento dos conflitos e a ameaça a regimes fantoches (como a ‘imprescindível’ monarquia da Arábia Saudita), o fluxo e o preço do petróleo podem ser radicalmente atingidos.

 Diante da importância geopolítica da região e da necessidade de líderes nacionais submissos, Arbex aponta para a perspectiva de uma mudança política controlada em direção a qualquer esboço de democracia – na Líbia e em todo o Norte da África e Oriente Médio.

 Correio da Cidadania:  Como avalia o atual momento das revoltas populares no Oriente Médio e no Norte da África, afetando toda a comunidade árabe e a geopolítica local?

Uma avaliação correta de tais conflitos tem de levar em conta a situação financeira e econômica mundial, por uma simples razão: essa é uma região que abastece o mundo de petróleo, um ativo fundamental pra movimentar a economia internacional. Ora, num quadro em que essa economia mundial ainda tenta debelar a crise de 2008, com passos muito claudicantes nesse sentido – bastando ver a crise da Grécia, as situações absolutamente periclitantes em Portugal e Espanha ou mesmo dentro dos próprios EUA –, pode-se ver que um distúrbio nesse momento no fluxo de petróleo, ou boatos que gerem pânico sobre isso, aumentando o preço do barril, incide diretamente na economia mundial.

 Alguns economistas, aliás, dizem que 10 dólares de aumento no preço do barril acarretam a diminuição de 0,25% do PIB mundial. Portanto, é óbvio que, se essa situação continuar do jeito que está, prolongando-se por muito tempo, vai explodir a economia mundial, pois esta não agüenta segurar o preço do petróleo acima dos 120 dólares, como já está hoje.

 Dessa forma, a crise dos países árabes tem significação planetária. E é isso que está em jogo no momento: não a crise da Líbia, do Egito, do Barein, nada disso, mas sim a situação da economia mundial.

 Em que a situação líbia se diferencia dos casos egípcio e tunisiano?

Focando no Egito, o caso mais exemplar, tem uma diferença brutal, que é a seguinte: o exército egípcio é fonte de orgulho nacional, foi formado com base no nasserismo, de Gamal Abdel Nasser, fundador do pan-arabismo, surgido em 1956 depois da vitória dele e de seu povo pela nacionalização do Canal de Suez, o que ocorreu em julho daquele ano. Depois, França e Inglaterra armaram uma ofensiva pra retomar o canal, Nasser armou a população egípcia, foram para o combate e as forças conjuntas de Israel, França e Inglaterra foram derrotadas. Isso deu ao exército e a Nasser uma reputação ímpar de liderança e representação do espírito árabe no Egito e Oriente Médio.

 Depois disso, foi derrotado na Guerra dos Seis Dias, também criou um governo autoritário etc. Mas o que interessa é que o mito Nasser sobreviveu ao político. O mito é mais forte que o político, sendo que o exército carrega essa mística, com a mitologia de ser aliado do povo. Desse mito, o exército tira o grande prestígio do qual desfruta, o que explica por que não quis atirar nos manifestantes nos protestos que derrubaram o regime, uma vez que tal prestígio lhe confere muito poder. O próprio Hosni Mubarak era militar e da turma do Nasser. Portanto, tal prestígio fez com que, de certa forma, a nação egípcia ficasse mais coesa em torno do exército. Isso deu uma unidade para o movimento no Egito que não existe na Líbia.

 Lá é o contrário. Na Líbia, o Kadafi tomou o poder numa situação de guerra de tribos – existem pelo menos 140 tribos na Líbia. O Kadafi conta com o apoio de uma parte delas e a oposição com outra parte; ele tem o exército líbio, mas também uma força paramilitar de 10.000 homens que controla diretamente. Assim, na Líbia não existe coesão nacional. Além do mais, a Líbia é uma junção de três regiões (sendo a Cirenaica a que mais tem petróleo) que jamais foram completamente integradas como um único país. Não é o que acontecia no Egito, onde a situação é radicalmente diferente.

 Aliás, não creio que a situação tenha chegado ao final no Egito, as contradições continuam. O Mubarak na verdade não foi tirado do poder. Já não é o presidente, mas está é passando uma temporada de férias na casa da praia. Não aconteceu nada com ele, não houve punição, todo o aparato construído por ele segue intacto e, mais cedo ou mais tarde, seu nome voltará à pauta das manifestações. A situação não foi resolvida, mas é fundamentalmente diferente da existente na Líbia.

 O que pensa da decisão de intervenção militar tomada pela ONU, e apoiada, entre outros, por EUA, França e Inglaterra, escudados pela OTAN?

Sou absolutamente contrário. Penso que qualquer ser humano minimamente informado sobre o status do mundo tem que ser contra. A ideia de que a OTAN está lá para fins humanitários só pode ser piada. Até dias atrás o Kadafi era tido como amigo dos países da OTAN; o Tony Blair foi visitá-lo, Berlusconi também. O Kadafi tem vários interesses em empresas multimilionárias europeias, nos EUA e, ademais, a partir de 2005, após conversas com o Bush filho, abriu a Líbia para a Exxon, a Brittish Petroleum, Texas Petroleum, ENI, enfim, várias grandes empresas petrolíferas desses países, além de ter aberto o país à indústria térmica estadunidense e também às empreiteiras, inclusive brasileiras.

 Dessa forma, a Líbia se transformou num parque de diversões das transnacionais, com o Kadafi lá. Portanto, essa ideia de que a OTAN está lá para defender os interesses do povo líbio é uma bobagem que não resiste à mínima memória histórica. Nos países em que a OTAN intervém, é massacre atrás de massacre. Por isso sou totalmente contra a intervenção, o que não significa que apoio o regime de Kadafi.

 Acho que esse regime é o fim do mundo; como disse, ele transformou o país em um parque de diversões de transnacionais, o que me leva a dizer que a Líbia está na iminência de uma tragédia. Quero dizer que, qualquer seja a solução, não há no horizonte visível, em minha opinião, alternativa alguma que atenda aos interesses reais do povo líbio. Se a OTAN ‘ganhar’ e ficar por ali, será uma tragédia; e se o Kadafi ganhar; será outra tragédia.

 Qualquer que seja, a solução será trágica ao povo líbio. Somos obrigados a dizer, mas é fato, não vejo nenhuma solução e não creio que ela passe por alimentar a ilusão de que as tropas da OTAN vão virar tropas da madre Teresa de Calcutá e vão ficar dando comida e assistência social e médica à população.

 Diante dessa conhecida abertura total do país às empresas transnacionais, como fica o argumento de algumas correntes progressistas e de esquerda que se colocam contra a intervenção militarista na Líbia, sob a alegação de que o ditador Kadafi foi durante muitos anos um opositor dos interesses norte-americanos na região, tendo inclusive adotado uma política econômica na contramão do neoliberalismo? Não soa anacrônico hoje tal argumento?

Exatamente. Houve uma transformação gradual, lenta e irresistível do regime do Kadafi a um governo francamente alinhado com os países da OTAN. Não dá mais pra tratá-lo como se fosse o antigo Kadafi. É um equívoco de boa parte da esquerda mundial, principalmente do Chávez, defendê-lo dessa forma.

 O que diria com relação à posição de abstenção do Brasil na votação da ONU quanto à intervenção militarista na Líbia?

Bom, o Brasil mantém sua tradição de tentar uma solução pelo diálogo, sem entrar em confronto direto com o imperialismo, como foi feito no caso das instalações nucleares do Irã.

 Eu a considero uma posição interessante no sentido de que pelo menos – pelo menos – o Brasil não está fazendo eco ao imperialismo, dizendo ‘sim, senhor’. Claro que há outros interesses nessa posição, mas ao menos não é somente abaixar a cabeça e abanar o rabo para o imperialismo.

 No entanto, está muito longe do que podia ser. O Brasil hoje tem condições, ou teria, de fazer denúncias da política de pilhagem da OTAN e da intervenção imperialista nos países onde ocorre tal pilhagem. O Brasil poderia assumir uma posição diplomática muito mais forte do que costuma assumir.

 Dessa forma, não fico na posição de elogiar a política externa brasileira e avaliá-la como antiimperialista, porque não é. Mas existem essas nuances, nem tudo é preto ou branco, temos de enxergar esses aspectos. E a posição brasileira tem a nuance de que, pelo menos em um aspecto, é interessante.

 E por que um foco tão direcionado e intenso do mundo todo em direção à Líbia, quando sabemos que outros países na região vivem momentos tensos e de dura repressão aos rebeldes, como Bahrein e Iêmen, Síria, Arábia Saudita, somando centenas de mortes também?

Porque há uma razão de ordem prática e outra de ordem estratégica. Qual é a de ordem prática? As exportações de petróleo da Líbia pra Europa despencaram brutalmente. Alguns falam em 50%, mas outras fontes falam em 25%. Ou seja, a Líbia está exportando muito menos petróleo à Europa em meio a esses conflitos. E eles estão apavorados, pois dependem do petróleo líbio e não têm como recompor as reservas.

 Essa é, portanto, a razão de ordem prática, a premência de tempo de retomar logo o fluxo. E a questão de ordem estratégica é exatamente pelo fato de o regime do Kadafi ter uma história anterior distinta dos demais países da região – Emirados Árabes, Arábia Saudita etc. Se a OTAN conseguir sufocar a rebelião na Líbia – onde supostamente haveria uma camada da população que visa a transformação antiimperialista, capaz de ter uma ideologia mais alternativa – e controlar o país, estará dado o recado aos demais países árabes: “olha, cuidado, mesmo na Líbia, conseguimos controlar a situação, então se cuidem”.

 Por isso penso que a Líbia virou um ponto chave na região toda. Se avaliarmos os outros países mencionados, onde há uma repressão brutal, como o Bahrein, veremos que quem promove a repressão é a Arábia Saudita, que ultrapassou suas fronteiras e está fazendo o serviço sujo por ali. E a Arábia Saudita ocupa uma posição absolutamente estratégica na história toda.

 Por quê?

Primeiro porque a monarquia saudita é guardiã dos locais sagrados do Islã. É lá onde estão Meca, Medina, os principais templos da religião islâmica… E é a primeira vez que a monarquia saudita se mete numa situação desse tipo, em que suas tropas estão matando muçulmanos. Isso é gravíssimo. Imagine como está a comunidade muçulmana mundial nesse momento ao saber que a maior guardiã dos principais locais sagrados do Islã está matando islâmicos em nome de interesses petroleiros. Isso provoca um desgaste de legitimidade para a Arábia Saudita muito grave, do ponto de vista do imperialismo, porque a Arábia sempre foi sua incondicional aliada.

 E, além disso, a Arábia Saudita é o único país que detém reservas e meios técnicos para manter o fluxo de petróleo para a Europa e o resto do mundo, mesmo que sequem todas as outras fontes.

 Portanto, a Arábia Saudita é vital, não pode estourar nada lá, se não, ferrou. Creio que é até por isso que as notícias sobre esse país são divulgadas em pílulas, mantidas em low-profile, como se não interessassem.

 Considerando ser a Líbia um país não unificado, composto por diferenciadas tribos e regiões em um extenso território, como já salientado, não se abre uma possibilidade considerável de cisão do país em pelo menos dois?

Creio que a OTAN pode trabalhar tal possibilidade, até para assegurar o controle das regiões mais ricas em petróleo. É uma possibilidade estratégica que a OTAN pode estar levando em consideração. Existem especialistas que já dizem isso, que uma das estratégias da OTAN seria tentar dividir a Líbia em três regiões, pegar aquela mais rica em petróleo e deixar as outras duas entregues ao caos.

 Fazendo da Cirenaica um Bahrein?

Provavelmente.

 Diante de tudo que foi dito, desse desgaste que certamente abriu os olhos de enorme parte do público para o despotismo que reina de forma generalizada na região, como deve caminhar o conflito em sua opinião de agora em diante? Há indício de evolução para algum tipo de processo ‘revolucionário’?

Sim, o processo revolucionário está em curso. O problema é que não há uma direção, ninguém sabe pra onde está indo essa onda toda. Não existe uma força organizada que dê o norte, mas a revolução está acontecendo.

 Eu lembro como exemplo o que aconteceu na Argentina em 2001. Havia senhoras de classe média, bem vestidas, saindo às ruas, o povo enfrentando a polícia, saqueando supermercado, tirando presidente da Casa Rosada no chute etc… E depois de tudo, o que aconteceu? Acabou acontecendo que, por falta de uma direção que dissesse o que fazer, voltou ao poder o peronismo, o Kirchner. Quer dizer, o anticlímax! O povo faz tudo, a revolução, tira os caras do poder, mas não tem direção e aparece o Kirchner pra pegar a cocada.

 Eu acho que são processos assim que tendem a se desenrolar no Oriente Médio e no norte da África, com uma diferença: o petróleo. Na Argentina, não havia a “urgência” de resolver o assunto como ocorre nos países árabes agora. Porque o petróleo do mundo está nesses países e, em função disso, a crise não pode se arrastar por tempo indeterminado. Esse é o dado de urgência que torna a crise de agora mais dramática.

 Há pouco tempo, nos dias que cercaram a queda de Mubarak no Egito, entrevistamos a historiadora Arlene Clemesha, que afirmou acreditar na tendência de se caminhar para “democracias representativas” na região. Você concordaria com tal análise a essa altura?

Não acredito nisso. Acho que a Arlene se deixou levar muito mais por otimismo, o wishful thinking. Nem no Egito creio nisso. Creio que o que ela disse resultou mais de um desejo de ver as coisas assim do que dos dados da realidade. Para se chegar a uma democracia representativa, precisa-se, no mínimo, de órgãos de representação razoavelmente legítimos, uma população que participe da vida pública e seja respeitada como opinião pública…

 Condições totalmente inexistentes em tais países…

Em todos esses países. Aliás, até no Brasil. Eu sou daqueles que pensam que o Brasil está muito longe de ser uma democracia representativa, liberal ou o que o valha. Temos uma aparência de democracia representativa, eleições, não sei o que, mas entre a aparência e o fato… Não dá pra chamar de democracia um país com a desigualdade econômica do Brasil. E no Egito, quando vão começar a resolver isso?!

 Dessa forma, penso que a Arlene está muito mais agindo por otimismo do que fazendo a análise mais realística do que ocorre por lá.

 Dessa forma, para a população conseguir se organizar e participar de fato da vida política de seus países, um longo e incógnito caminho teriam ainda que ser percorridos?

Vai custar caro. Até porque, como eu disse, o Hosni Mubarak não saiu do poder. Está lá ainda.

 Qual seria a saída por você considerada ideal, aquela que a comunidade internacional deveria adotar, considerando a atual situação geopolítica e a extensão já atingida pelos conflitos?

Comunidade internacional quem? Quando falamos em comunidade internacional estamos nos referindo a quem exatamente?

 Digamos que, num exercício de idealismo, a uma comunidade internacional que buscasse a saída adequada e justa. Aquela que atuaria no interesse dos povos.

É que essa expressão eu não consigo levar a sério… Não consigo entender o que significa, não sei o que é. Eu penso que existem interesses internacionais solidamente estruturados. Interesses internacionais financeiros, banqueiros, petrolíferos, da indústria de armamentos. E tem a classe trabalhadora, o povo, que passa fome no Oriente Médio, com preços de alimentos cada vez mais extorsivos…

 Quanto ao interesse dos povos, ele consiste em fazer cair essas ditaduras todas e varrer o imperialismo. Mas a perspectiva de que isso aconteça sem uma direção real é muito wishful thinking.

 Finalmente, o que esses momentos iniciais do governo Dilma te dizem da nossa nova diplomacia relativamente à anterior?

Trata-se em parte do que já falei. Não vejo muitas modificações. Aliás, nem em relação ao governo FHC acho que houve grandes mudanças na diplomacia.

 O Itamaraty mantém uma certa tradição de formulação de política externa dentro daquilo que se chama de pragmatismo. O que eu considero uma grande porcaria, mas é assim.

 Por exemplo, o que pouca gente sabe é que, quando houve um boicote do petróleo para a Venezuela, assim que o Chávez ganhou as eleições, o Fernando Henrique determinou o abastecimento de petróleo brasileiro para a Venezuela, para evitar o desabastecimento deles. Foi o FHC que fez isso. Uma atitude que decorre da tradição do Itamaraty, que eles chamam de pragmatismo ou coisa assim.

 Não creio que teve nenhuma grande mudança.

Fonte

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2 Respostas para “Líbia: o que está em jogo é a economia mundial

  1. Pois é, Mirze. Infelizmente é isso mesmo.

    Adair

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  2. Sendo assim, não importa o país, o que importa é o petróleo. Tudo gira em torno disso, guerras virão, alguns países decretarão falência (entre aspas) mas quem sofre mesmo são os pobres que nem imaginam o que o petróleo representa!

    Muito BOM!

    Mirze

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