A farra do importado

Gerson Freitas Jr 23 de março de 2011

Venda de bens manufaturados vindos de fora representaram quase a metade da alta do consumo.

Embora tenha se recuperado do baque sofrido em 2009, a indústria dá sinais cada vez mais claros de que não está pronta para atender à expansão do consumo no País. Mesmo com a demanda aquecida, a produção de manufaturas estagnou-se perto dos níveis pré-crise, enquanto o apetite dos consumidores é cada vez mais suprido por produtos importados.

O problema parece pouco evidente quando se observam os números do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010. De acordo com o IBGE, a produção industrial brasileira cresceu 10,1% em relação ao ano anterior, um desempenho aparentemente notável. Contudo, a observação esbarra na base de comparação: em 2009, a produção desabou 7,4%, a maior queda em duas décadas.

Outros dados mostram que o cenário é bem menos otimista do que pode parecer. O IBGE mostra que a produção industrial acumulou queda de 2,6% no período entre abril de 2010 e janeiro de 2011. E, apesar do aumento nas contratações, o número de horas trabalhadas na produção se mantém 3,3% abaixo do patamar pré-crise, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Chama a atenção o fato de que o consumo e a produção estão se descolando no Brasil. Se as manufaturas estão estagnadas, o volume de vendas do varejo cresceu 8,3% em janeiro, na comparação com o mesmo período de 2009. Nos últimos 12 meses, a expansão passou de 10,5%. O resultado é uma avalanche de produtos fabricados no exterior.

Segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o coeficiente de importação da indústria – a relação entre os importados e o consumo aparente –, que havia caído de 20,1% para 18,3% entre 2008 e 2009, avançou a 21,8% em 2010 – um recorde. Como resultado, o déficit na balança comercial do setor de manufaturados alcançou 70,9 bilhões de dólares, outro número inédito.

Mais um dado da Fiesp dá a medida exata do problema. Em 2010, o consumo interno de bens manufaturados teve um aumento real de 182,18 bilhões de reais em relação a 2009. Desse volume, a indústria nacional conseguiu abocanhar pouco mais de 96,95 bilhões de reais, ou 53%.

O desempenho é ainda mais preocupante quando a base de comparação é 2008. No período, a demanda interna cresceu pouco acima de 75 bilhões de reais, dos quais a indústria doméstica abocanhou apenas 34,7 bilhões. Ou seja, para cada real novo que o brasileiro gastou em produtos industrializados no último biênio, apenas 46 centavos foram para a produção doméstica.

Em alguns setores, o distanciamento entre consumo e produção é ainda mais gritante. Cerca de 90% do aumento no consumo de têxteis entre 2008 e 2010 foi suprido pelos importados. No mercado de máquinas e equipamentos, os estrangeiros abocanharam toda a expansão da demanda.

Na siderurgia, os importados não só absorveram todo o crescimento do consumo interno, como roubaram parte do mercado atendido pelas empresas nacionais. Embora o consumo aparente tenha crescido 4,1 bilhões de reais nos últimos dois anos, o valor da produção interna caiu 1,1 bilhão de reais. “Uma coisa fica clara: a indústria perdeu competitividade e não consegue refletir o que se passa em outros setores da economia”, afirma Rogério César de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Souza explica que o câmbio valorizado, os gargalos na infraestrutura e a elevada carga tributária fragilizam a indústria brasileira em um momento em que muitos países, ainda em crise, apostam tudo no mercado externo. Sem mencionar a China. “As empresas brasileiras estão totalmente expostas à concorrência, o que em muitos aspectos é bom. Mas é preciso chamar a atenção para as práticas desleais de comércio.” O economista observa ainda que a indústria brasileira precisa ser mais agressiva e acelerar seus ganhos de produtividade.

Apesar de a produção estar estagnada, não se pode dizer que a indústria vai mal. Ao menos, do ponto de vista da receita. Segundo estudo da Rosenberg & Associados, o faturamento da indústria cresce em ritmo superior ao da produção em 12 dos 19 setores analisados. Em parte, a diferença é explicada pela decisão de muitas indústrias de importar em vez de produzir. “O componente importado da produção interna está crescendo. A empresa reduz o impacto do câmbio, mantém competitividade e aumenta seu faturamento, mas a produção perde densidade”, afirma Flávio Castelo Branco, economista-chefe da CNI.

O temor é que o estímulo a importar comprometa a disposição do empresário em investir na produção, o que aumentaria a dependência do País em relação aos importados no futuro. Os dados do IBGE mostram que a Formação Bruta de Capital Fixa cresceu de modo expressivo em 2010, retomando o desempenho observado antes da crise. Contudo, a análise dos números recomenda cautela.

Levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que a indústria planeja investir 614 bilhões de reais entre 2011 e 2014. Só os setores de petróleo e gás e extração mineral deverão consumir 440 bilhões, ou 71,7% do total. Os segmentos de siderurgia, química, papel e celulose, veículos, eletroeletrônica e têxtil devem responder por apenas 28% do bolo.

A tendência, diz Castelo Branco, aponta para um desequilíbrio na indústria brasileira. Segundo ele, as enormes demandas de capital para a exploração do pré-sal e a promessa de rendimentos expressivos nos setores em que o Brasil é mais competitivo acabam por absorver investimentos dos setores em que os retornos são menos atraentes. “As áreas de petróleo e mineração tendem a atrair muitos dólares, o que valoriza ainda mais o câmbio e expõe a indústria de transformação à concorrência externa.” O risco, temem os economistas desenvolvimentistas, é o País se especializar cada vez mais na produção e exportação de matérias-primas, à custa de soterrar sua base industrial diversificada. “O Brasil é um país- muito grande e complexo. Não pode se dar ao luxo de se especializar em um único segmento”, afirma Castelo Branco.

Fonte

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