Belo-horizontino coleciona proibições

População convive com teatro sem pipoca, parque sem bicicleta, Carnaval sem rua, passeio sem mesa de bar

Augusto Franco

20/02/2011

Jornal Hoje em dia

Imagine uma cidade sem manifestações culturais nas ruas, como as micaretas e o Carnaval. Sem feiras populares, sem mercados tradicionais, sem mesas de bares e restaurantes nas calçadas, sem pipoqueiros na porta dos teatros e cinemas. Nos parques, a única prática 100% legal é a contemplação. É proibido andar de bicicleta, deitar na grama, levar o cachorro para passear e até esticar as costas deitado nos bancos. E as atividades remanescentes de uma época menos restritiva estão ameaçadas. Por lei, esta cidade é Belo Horizonte.

Praia da Estação

Nas últimas duas décadas, a palavra de ordem do poder público na capital foi uma só: “é proibido”. Leis propostas, aprovadas pela Câmara Municipal e sancionadas pelos prefeitos Eduardo Azeredo, Patrus Ananias, Célio de Castro, Fernando Pimentel e Marcio Lacerda proibiram a maior parte das manifestações públicas cidade afora.

Agora, novos planos, ainda em fase de estudo, pretendem retirar da Avenida Afonso Pena a Feira de Artesanato – a maior do gênero em toda a América Latina. E das calçadas do boêmio Bairro Santa Tereza, na Região Leste, mesas de todo e qualquer bar, já que os passeios são estreitos demais. As duas medidas enfrentam resistência de comerciantes e associações de moradores.

A primeira vítima da moda de “proibir” foi o desfile de Carnaval na Avenida Afonso Pena. Depois de uma sequência que começou em 1959, com interrupções nos anos de 1977 e 1989, os desfiles das escolas foram definitivamente proibidos em 1992, durante a administração de Eduardo Azeredo. O motivo: muita sujeira, e os blocos atrapalhando o trânsito.

“O Carnaval com blocos na Afonso Pena era diferente de todos os outros do país. Aqui, eles subiam a avenida, e a multidão fazia a tradicional Guerra de Confete na altura do Cine Brasil, na Praça 7. Era uma farra”, conta Luiz Mário Jacaré Ladeira. Ele é um dos fundadores da Banda Mole, que há 36 anos movimenta o Centro de BH no sábado anterior ao de Carnaval.

A própria Banda Mole foi vítima de proibição, depois de uma série de incidentes em 2003. Naquele ano, a Polícia Militar acabou usando de truculência para conter foliões que subiam a Rua da Bahia. Os foliões saíam da Praça 7, subiam Rua da Bahia, desciam Guajajaras ou Timbiras e retornavam para o local de origem, arrastando uma multidão do meio-dia até depois das 22 horas.

Outras baixas das reclamações de vizinhos incomodados com o barulho e com o xixi na rua foram o Micaronte, que morreu depois de sua primeira edição, em 199, e o Carnabelô, que depois de cinco anos foi transferido do Centro de BH para o Mineirão e depois para o Megaspace, em Santa Luzia.

 

 

“Praia da Estação” vira bloco

Belo Horizonte terá pelo menos 12 blocos caricatos independentes – e não contabilizados pela prefeitura – passando pelas ruas do Centro, Santa Tereza e outros bairros da capital durante o Carnaval deste ano. O lançamento dos blocos, que já têm temas, sambas e marchas compostas para a folia, acontece no dia 26, na Praça da Savassi. A organização ficou totalmente a cargo de jovens que participam desde o final de 2009 do movimento “Praia da Estação”. Todos os sábados, dezenas de pessoas se reúnem no local trajando roupas de bano e munidos de instrumentos musicais, caixas de isopor com cerveja, refrigerante e lanches, O frescobol não pode faltar.

A “Praia da Estação” começou em dezembro de 2009, quando o prefeito Marcio Lacerda proibiu “todo e qualquer tipo de evento” na praça. A medida foi publicada no dia 10 de dezembro, e no final de semana seguinte, o protesto começou. Nas duas primeiras semanas, guardas municipais e policiais militares cercaram os manifestantes. Depois, a fiscalização parou, e as reuniões continuaram.

O grito de Carnaval do dia 26 vai contar com barraquinhas de comida e bebida organizadas pelos jovens para arrecadar fundos, lançamento das músicas compostas para este Carnaval, e o pré-lançamento do primeiro CD da banda mineira Pequena Morte.

Vários integrantes do grupo participam das manifestações. Entre eles, o baterista Tamás Bodolay. Segundo ele, toda a articulação está sendo feita por meio de sites de relacionamento, como o Facebook e o Orkut, e grupos de discussão via e-mail.

“Essa movimentação acaba tendo, de certa forma, um viés político. É um questionamento ao prefeito Marcio Lacerda e à proibição do uso da Praça da Estação, no ano passado”. Além das próprias músicas, integrantes do protesto colocaram nas comunidades letras completas de marchinhas consagradas, como “Índio quer apito”, “Saçaricando” e “Coração de Jacaré”.

Banho de sol termina na prisão

Hábito em parques nos países europeus, Estados Unidos e em algumas cidades da América Latina, o banho sol em praça pública acabou em prisão em Belo Horizonte. A designer Márcia Amaral foi parar na delegacia em 2008, depois de se deitar para tomar banho de sol na então recém-reformada Praça Raul Soares, no Hipercentro de BH.

Dois guardas municipais obrigaram a “Musa da Praça”, apelido dado pela Imprensa belo-horizontina à designer, a sair da grama, onde havia estendido sua canga. Teimosa, Márcia resistiu, deitou-se ao lado da fonte, na calçada, e acabou sendo arrastada pelo braço.

Em audiência realizada no mesmo dia no Juizado Especial Criminal, Márcia foi condenada pelo juiz Cristiano de Oliveira Cesarino a prestar quatro horas semanais de serviços à comunidade durante três meses. A medida evitou que ela respondesse a processo criminal.

Além de desacato, a designer foi enquadrada na Lei Federal 9.609, de 1998, cujo artigo 49 prevê punição de um a seis meses de prisão ou multa a quem prejudicar ou danificar planta ornamental em logradouro público.

Márcia reapareceu dois anos depois, na “Praia da Estação”, na semana passada. “Morei na Europa, e lá é supercomum aproveitar as praças públicas para tomar sol. Aqui é que é uma roça, mas as pessoas estão começando a se acostumar com essa moda”.

Sempre bem-humorada, a designer, que segue morando no Edifício JK, em frente à Praça Raul Soares, critica a restrição. “O curioso é que eu não posso, mas os mendigos e os bêbados podem dormir na grama sem problemas, e as madames que passeiam com seus cachorrinhos deixam o cocô na via pública sem serem incomodadas”.

O sol também nasce para todos em países nórdicos, como Suécia e Noruega, onde a temperatura é baixa na maior parte do ano. Quando aparece, é comum que as mulheres façam top less nos parques e praças, mesmo que os termômetros não cheguem aos 20 graus.

Fonte

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3 Respostas para “Belo-horizontino coleciona proibições

  1. Mas mesa em cima de calçada impedindo a passagem de pedestres não é “cultura”. É exploração de um espaço público por um empresário canalha que está se lixando pro “populacho” que anda a pé, obrigado a descer da calçada e correr o risco de morrer atropelado. Isso sem contar os carros estacionados em local proibido, em ponto de ônibus, em cima de calçada. E isso rola pela cidade aparentemente sem repressão, especialmente na zona sul onde os bacanas se encontram. Quanto à designer tirar a roupa na praça e tomar banho de chafariz…

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  2. Então…
    É uma situação delicada realmente para se tratar. Proibir manifestações culturais não faz sentido algum…”a praça é do povo”. Tirar a feira da Afonso Pena? que peninha…para mim, é uma das coisas que mais gosto em BH. Atrapalha o trânsito no domingo? Que coisa…acho que estamos mesmo é precisando rever a dependência absurda do uso de veículos. Afinal, as ruas foram feitas só para os carros ou para as pessoas também?
    Que é necessário planejamento urbano, isso e obvio, mas sem castração dos direitos mínimos dos cidadãos de manifestação cultural e de diversão.

    Em relação ao carnaval…bem, o carnaval anda pra lá de deturpado e faz tempo. Não suporto nem ouvir as vinhetas do carnaval mega do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Sou simpática aos blocos de rua…aqueles pequenos com marchinhas de carnaval, tipo os que circulam em Santa Teresa no RJ, por exemplo…
    Mas particularmente, não gosto de lugares cheios, de muvuca, de gente bêbada me incomodando, de baforada de cigarro. Assim, me escondo nesse período…procuro o silencio e o sossego. Penso que é a melhor forma…deixar quem gosta da movimentação curtir e eu que me sinto incomodada, passo bem longe.

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