Soledade Santos

INVENTÁRIO

 

A minha boca dei ao Côa,

é outra maneira acredito

de estar viva

quando de todos os meus rios

perdi o montante

e a jusante se espraiam olhos,

digo águas sem norte.

 

Tenho o linho desta terra óssea,

tenho um cavalo que nas margens da noite

me chama e escarva doido

e um castelo nesse lugar

onde os castelos se escondem para levitar.

– É coisa pouca mas arde.

TERRA DE VERÃO

 

Trazemos-te da quinta uma cesta de amoras.

Sorris da túmida perfeição e antecipas

com prazer o suco que há-de tingir-te

de roxo os lábios e as mãos vorazes.

Mas as amoras logo te aborrecem,

não te apetecem e o entusiasmo foi breve,

já não podes ir à quinta e nem te alegram

as notícias das árvores transplantadas.

 

Começaste a falar menos, cansas-te e talvez

já não te interesse o que virá depois,

até a curiosidade pela lavoura do teu corpo cessou.

Ultimamente apercebi que todos falamos menos,

é difícil falar sem projectar o futuro,

para o ano, dizíamos, ou neste inverno vamos,

mas agora sabemos que te irás com o verão

e por um pudor desajeitado quase deixámos de falar

como se o mundo se fosse acabar nestas três semanas

que o teu prognóstico desenha.

 

Ainda disseste precisava de mais um ano,

mas aceitaste o tempo contado sem protestos

e começaste logo a desabitar a casa,

o lugar no topo da mesa,

como um inquilino bem comportado.

 

Enquanto isso florescem

as árvores que plantaste,

as crianças que geraste dão fruto também

e no silêncio em que te acolhes começo a confundir-te

com a terra vermelha do teu último verão.

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