Egito – O fracasso do leopardo

Antonio Luiz M. C. Costa

14 de fevereiro de 2011

O plano a, repressão policial e militar pura e simples, não funcionou. O povo não se intimidou com jatos d’água, cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Segundo jornalistas do Wall Street Journal, Hosni Mubarak ordenou ao ministro do Interior, general Habib al-Adly, atirar nos manifestantes para matar, mas o assistente militar deste, o general Ahmed Ramzy, recusou a ordem.

Ante o impasse, o presidente ordenou ao Exército ocupar as ruas e o ministro do Interior, furioso, ordenou à polícia abandonar seus postos e “deixar os manifestantes experimentar a anarquia” – o que piorou o caos e aparentemente fez Al-Adly cair em desgraça. Foi destituído, teve os bens congelados, foi proibido deixar o país e, segundo a rede Al-Arabiya, está sendo investigado por envolvimento no atentado do réveillon contra a igreja copta, que ele tinha atribuído a fundamentalistas palestinos.

∏ – Quem é Omar Suleiman, ex vice-presidente do Egito

Treinado pela CIA na década de 1980 na John F. Kennedy Special Warfare School, situada no Fort Bragg, Carolina do Norte, EUA. Responsável pelo programa de rendição extraordinária da agência de espionagem norte-americana desde 1995, no qual suspeitos de terrorismo capturados pelos EUA foram repassados para o Egito e para outros países, sem procedimentos legais, para serem torturados.

Arquitetou a destruição dos túneis construídos pelos palestinos na fronteira do Egito com Gaza, que serviam para facilitar o acesso de artigos para a sobrevivência dos palestinos.

Fonte. jornal O Tempo, BH, 11/2/2011, p. 23

 

O plano B, convocar contramanifestações – que aparentemente partiu do “baixo clero” do governista Partido Nacional Democrático (PND) – também deu em nada. Ao contrário do que aconteceu no Irã de 2009, quando Mahmoud Ahmadinejad se mostrou capaz de mobilizar massas pelo menos equivalentes às da oposição de Mir-Hossein Mousavi, no Egito o pequeno número e a brutalidade dos supostos partidários de Hosni Mubarak, juntamente com as identificações de muitos dos capturados pelos oposicionistas, serviram para demonstrar que suas bases não vão além de policiais à paisana, integrantes (literalmente) de carteirinha do partido governista e provocadores pagos.

O plano C pareceu ser a estratégia de Tancredi em O Leopardo, o romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Seu tio, dom Fabrizio, tem seu feudo siciliano ameaçado quando Garibaldi invade o velho reino das Duas Sicílias para uni-lo ao norte em uma Itália unificada. O sobrinho decide se unir às forças invasoras e explica: “Se nós não estivermos lá, eles fazem uma República. Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”. Com a promessa de negociar emendas na Constituição nos próximos meses e de realizar eleições presidenciais em setembro sem a participação do velho ditador ou de seu filho Gamal, o governo esperou desmobilizar os manifestantes enquanto assegurava uma transição sob seu controle e a manutenção do regime sem grandes mudanças além de uma superficial troca de guarda.

Mas se cabe a comparação de Mubarak com dom Fabrizio, seu recém-oficializado vice-presidente Omar Suleiman se mostrou longe da maquiavélica ousadia de Tancredi. As concessões que anunciou ficaram muito aquém das exigências dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus – nem se fale das massas egípcias – e foram acompanhadas de uma reverência quase religiosa, descabida a essa altura dos acontecimentos, para com “nosso pai Mubarak”, já descartado pelas potências e odiado pelos manifestantes. Foi dizer de maneira demasiado explícita que não se pretendiam mudanças reais.

A proposta de uma “abertura lenta e gradual” ao estilo dos generais Geisel e Golbery só teria esperança de funcionar se fosse oferecida antes que as massas estejam de fato nas ruas exigindo cabeças – como aconteceu no Brasil, Chile e Uruguai, mas não, por exemplo, na Argentina. Em vez de desmobilizar os protestos, a oferta soou como insulto e os acirrou. Muitas das principais forças de oposição recusaram-se a dialogar dentro desses limites e as manifestações tomaram novo ímpeto em 8 de janeiro, voltando a encher a Meydan Tahrir (Praça da Libertação) e transbordando para as ruas vizinhas.

Figuras conhecidas da mídia egípcia juntaram-se às manifestações, inclusive atores e atrizes e as âncoras da tevê estatal Shahira Amin e Soha Ennakkash. Tão conhecidas no Egito quanto, digamos, Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão no Brasil, demitiram-se para não ter de mentir em nome de Mubarak. O próprio jornal do governo, Al-Ahram, passou a fazer uma cobertura favorável às manifestações.

No dia seguinte, Suleiman insistiu em que Mubarak é um “herói de guerra” e que “insultá-lo é insultar o Egito”, declarou que não toleraria a continuação da ocupação da praça, afastou a possibilidade de entregar o poder a um governo de transição e disse que “a única alternativa para o diálogo é um golpe” – uma aparente ameaça de reverter ao plano A.

O chanceler egípcio Ahmed Aboul Gheit se disse “estarrecido” com a “imposição” dos EUA transmitida pelo vice-presidente Joe Biden – que pediu suspensão imediata do estado de emergência em vigor desde o início do governo Mubarak, que permite prisão sem acusação prévia – alegando falta de “condições de segurança”. “Deem-me tempo para controlar e estabilizar o país, para estabilizar o Estado, e então pensaremos no assunto.” Ou não assimilou a derrota, ou assumiu uma postura de “ou nós ou o dilúvio”.

Gheit também reforçou a advertência de Suleiman de que o Exército poderia agir se “aventureiros” tentassem tomar o poder. Mas a oposição não pareceu muito impressionada: o Exército tem mantido uma postura neutra e muitos soldados e oficiais têm se confraternizado com a oposição. Na pior das hipóteses, o povo não vê razões para acreditar que um novo ditador militar venha a ser pior que o atual.

Os manifestantes voltaram a atacar instalações do governo em várias partes do país e bloquearam a sede do Legislativo, impedindo a entrada de deputados governistas e reafirmando, com faixas e palavras de ordem, que querem a queda de todo o regime e não só de Mubarak. Enquanto as negociações entre governo e oposição chegavam à beira do colapso, greves ameaçaram parar meios de comunicação, indústrias, serviços públicos e transportes, inclusive o Canal de Suez, reivindicando a demissão do presidente, a dissolução do Parlamento, a remoção do PND do governo, o aumento do salário mínimo e a abolição da lei de emergência.

Como notou o New York Times, pode ser um ponto de inflexão: o movimento operário organizado (não apenas trabalhadores participando de protestos) costuma ser o último a aderir a uma revolução e um de seus fatores mais decisivos. No Irã e na Tunísia, os regimes desabaram de vez quando os trabalhadores entraram na luta com greves em massa.

A tensão aumentou no dia 10. Declarações de militares e políticos indicaram que Mubarak renunciaria e o Conselho Militar se reuniu pela primeira vez desde a guerra de 1973, sem sua presença. Mas o discurso do presidente frustrou terrivelmente a enorme multidão da Meydan Tahrir, limitando-se a confirmar as magras concessões da semana anterior e delegar funções não especificadas a Suleiman.- Para a BBC, “foi escrito por alguém que vive numa bolha”.  A massa agitou sapatos e gritou: “Fora! Fora!”, em fúria. Parece haver sérias divergências na cúpula militar e partidária do regime.

Enquanto alguns no governo egípcio alimentam ilusões (nem todos: o ministro da Cultura, Gaber Asfour, renunciou dias depois de nomeado, alegando razões de saúde), o Ocidente conduz uma operação de controle de danos. Sem entusiasmo, busca as melhores relações possíveis com uma oposição que, a seu ver, mais cedo ou (não muito) mais tarde, estará no poder. De preferência com um líder laico como El-Baradei, mas com a participação inevitável da Fraternidade Islâmica. A Casa Branca e seus aliados mais próximos não param de dizer a Mubarak e Suleiman que a mudança tem de ser “imediata”, “significativa” e dentro de um cronograma com que “o povo se sinta confortável”.

O problema é que também é preciso tranquilizar os aliados que temem ser desamparados. Israel, Arábia Saudita, Jordânia e União dos Emirados Árabes protestaram, pedindo aos EUA para não abandonar Mubarak. Hillary Clinton parece tê-los atendido parcialmente ao pedir uma “transição ordeira” e dizer que a renúncia imediata de Mubarak poderia complicar o “caminho do Egito para a democracia”. Mas só até certo ponto. Enquanto o cenário piorava nas ruas do Cairo, em 9 de janeiro, o porta-voz do Departamento de Estado, Robert Gibbs, dizia, mais ou menos, “bem-feito”. Ou, para ser mais exato, “não é uma surpresa, dada a falta de passos do governo para ir ao encontro das preocupações do povo. Achamos que mais tem de ser feito e, mais importante, o povo do Egito também acha que mais tem de ser feito”.

O chanceler britânico William Hague, por sua vez, pediu a Israel que baixasse o tom de sua “linguagem beligerante” sobre os protestos árabes, depois que Benjamin Netanyahu falou a seu Parlamento dizendo que o Egito podia “tornar-se outra Gaza, governadas por forças radicais” e que Israel precisa preparar-se para “qualquer possibilidade”. Enquanto isso, a central sindical israelense Histadrut cogita de iniciar sua própria versão dos protestos árabes, discutindo uma greve geral contra os aumentos de preços de alimentos, água e combustíveis.

Como apontou Immanuel Wallerstein, a teimosia do regime Mubarak e a hesitação dos EUA – aflitos para ficar do lado dos vencedores, mas sem saber exatamente quais serão e sem querer perder o apoio dos ditadores e monarcas absolutos de que ainda julgam precisar – fazem do Irã e da Turquia os dois maiores ganhadores com o processo revolucionário que agita os países árabes.

O Irã, que os EUA já favoreceram involuntariamente derrubando seu inimigo Saddam Hussein e abrindo caminho a um governo xiita, simpático aos aiatolás, em Bagdá, ganha outro presente dos deuses (ou melhor, de Alá) com o desmoronamento do governo árabe mais importante para a estratégia ocidental e israelense no Oriente Médio e a ameaça aos regimes da Arábia Saudita e Jordânia. Mesmo que o governo que vier a emergir no Cairo não seja tão fundamentalista e anti-Israel quanto o aiatolá Khamenei e o presidente Ahmadinejad poderiam desejar, o Pentágono e as Forças Armadas israelenses terão mais com que se preocupar do que o programa nuclear de Teerã.

A Turquia, que também não nega apoio aos manifestantes no Egito, tem uma nova oportunidade de se apresentar como defensora da causa árabe, muçulmana e democrática ao mesmo tempo. Se há algumas décadas Ancara era malvista pelos povos árabes, tanto pela lembrança da opressão do antigo Império Otomano quanto por sua aliança com os EUA e Israel, hoje seu governo é o mais popular da região (exceto, é claro, entre os israelenses).

O risco de o Egito se tornar outro Irã, alegado por Israel e pela direita estadunidense, parece pequeno. Mas a melhor hipótese desses pontos de vista, é ver o país- se tornar uma nova Turquia –  um país com instituições democráticas e certa liberdade de expressão, mas com um partido islâmico moderado no poder, que busca relações amigáveis tanto com o Irã quanto com o Ocidente e mantém com Israel relações pacíficas, mas muito frias.

Já seria uma mudança drástica no cenário do Oriente Médio, mesmo que não se espalhe para outros países hoje pró-ocidentais. Israel terá de ampliar seus gastos militares, reforçando a fronteira com o Sinai e deixará de ter a cooperação do Egito para sufocar o Hamas em Gaza. A Organização de Libertação da Palestina, que dirige a Autoridade Palestina na Cisjordânia, perderá seu sustentáculo no mundo árabe e sua razão de existir. Não é à toa que Mahmoud Abbas reprime as manifestações de apoio à revolução egípcia em Ramallah, mas provavelmente será em vão. Israel deixará de acreditar na coexistência com um Estado palestino, por frágil e submisso que seja, e seu comportamento tenderá a se tornar mais paranoide e autoritário.

Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica.

Fonte

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