O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno

Eduardo Viveiros de Castro**

A Amazônia não é uma “coleção de árvores” – estas existem nos hortos botânicos e nos jardins públicos ou de palácios –, mas um ecossistema, uma floresta composta de árvores e uma infinidade de outras espécies vivas, inclusive seres humanos, que lá estão há pelo menos 15 mil anos.

A Amazônia jamais foi um vazio humano, ao contrário, se em algum momento conheceu um nadir demográfico foi após a invasão européia, com suas epidemias, seus descimentos forçados das populações nativas para fixação em missões e feitorias. E as populações indígenas encontraram, ao longo destes milênios de co-adaptação com o ecossistema amazônico (ou ecossistemas, pois a Amazônia são muitas), soluções de “sustentabilidade” infinitamente superiores aos processos truculentos e míopes de desmatamento.

A floresta amazônica sempre foi povoada, e nunca foi – ou não é há muitos séculos, milênios, talvez – “virgem”. Mas o fato de a floresta não ser mais virgem não confere legitimidade a quem a estupra. A Amazônia está, sim, sofrendo um violento processo de agressão – não a coleção de árvores, mas a Amazônia inteira, suas populações tradicionais e miríades de espécies vivas. Precisamos de um novo modelo de desenvolvimento, que não seja a imitação simplória das receitas norte-européias, mas que ponha a floresta no centro da equação. Não é mais possível fazer política sem levar em consideração o quadro último em que toda política real é feita, o quadro da imanência terrestre.

Usei a palavra imanência deliberadamente aqui. O ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, disse em recente entrevista que o destino do homem é ser “grande, divino; não é ser uma criança aprisionada em um paraíso verde”; e que “todas as pessoas são espíritos que desejam transcender”. Os índios concordariam com o ministro em que todas as pessoas são espíritos. Mas, com certeza, não concordariam com a idéia de que todos os espíritos ou pessoas “desejam transcender”. Esta é uma afirmação que soaria aos ouvidos indígenas inquietantemente parecida com aquela que eles vêm ouvindo com tanta insistência durante os cinco séculos desde a chegada dos europeus – a afirmação de que eles são crianças que precisam ouvir a mensagem divina da transcendência para se tornarem seres humanos plenos, a saber, cristãos e bons cidadãos (isto é, com muita fé e nenhuma terra).

Os índios não estão “aprisionados em um paraíso verde”, como disse o ministro. A Amazônia não é um paraíso; ao contrário, é uma laboriosa construção co-adaptativa, um sistema em equilíbrio dinâmico onde entraram a engenhosidade técnica humana (indígena) e as infinitas engenhosidades naturais das espécies que ocupam a região.

A idéia de que as populações indígenas precisam ser “liberadas”, exposta em texto recente de Mangabeira Unger, parece-me visceralmente equivocada. Os índios que sofrem de depressão, suicídio, alcoolismo são justamente os não dispõem de terras – os do Mato Grosso do Sul, por exemplo –, não os índios da Amazônia como os Yanomami, povo forte e feliz, justamente por gozar de um território à medida de suas necessidades.

As áreas indígenas da Amazônia são as menos desmatadas. Elas detêm o processo de devastação nas fronteiras do país e são peça essencial no processo de regularização ou estabilização jurídica da caótica situação fundiária da Amazônia, o paraíso da grilagem, da pistolagem, do tráfico de drogas, do contrabando e do subsídio. A Amazônia tem cerca de 20% de seu território desmatado – nas áreas indígenas, esse índice é inferior a 1%.

O general Augusto Heleno levantou uma lebre inexistente, e se fez porta-voz dos interesses mais retrógrados que cobiçam a Amazônia. O problema da Amazônia não é a falta de idéias, mas o excesso de interesses, o conflito de interesses, nem todos interessantes para o país. A posição do governador de Mato Grosso, que conjuga de maneira eticamente miraculosa (meu primeiro eufemismo do dia) o papel de representante de um Estado da federação e seu maior agente econômico, é repugnante.

Naturalmente, os índios sofrem de vários problemas, muitos causados pela incúria dos órgãos e agências de Estado que deveriam fazer respeitar seus direitos constitucionais.

Mas também não se pode negar que os índios conhecem dificuldades de adaptação às formas socioeconômicas (e espirituais) da sociedade nacional porque suas culturas escolheram um caminho civilizacional radicalmente distinto do nosso – o que chamei de via da imanência em lugar de via da transcendência. As culturas indígenas não estão fundadas no princípio de que a essência do ser humano é o desejo e a necessidade. Os índios não rezam pelo sistema econômico-teológico ocidental que tira das pessoas o que elas têm e as fazem desejar o que não têm.

O desenvolvimento supõe uma antropologia da necessidade: a infinitude subjetiva do homem – seus desejos insaciáveis – em insolúvel contradição com a finitude objetiva do ambiente – a escassez dos recursos. Estamos no coração da economia teológica do Ocidente, como tão bem mostrou Marshal Sahlins.

Mas essa concepção econômico-teológica da necessidade é, em todos os sentidos, desnecessária. O que precisamos é de um conceito de suficiência, não de necessidade. Contra a teologia da necessidade, uma pragmática da suficiência. Contra a aceleração do crescimento, a aceleração das transferências de riqueza, ou circulação livre das diferenças.

Os índios são os senhores da imanência. Que transcendência temos nós, supostos representantes da Razão e da Modernidade, a oferecer a eles neste desanimador começo de século? É mais fácil os índios nos libertarem do que nós libertá-los. Pelo menos em espírito.

* Artigo publicado no site do Instituto Socioambiental http://www.socioambiental.org, em 29.06.2008 (versão reduzida)

** Antrópologo. Professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Fonte

 

 

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