O vidente

Primeiro o menino viu uma estrela pousada nas
pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.
Logo o menino contou que viu o dia parado em cima
de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.
A turma falou: Mas como você pode apertar parafuso
no vento
Se o vento nem tem organismo?
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.

Manoel de Barros.

Fonte

Enviado por Júlia Jardim

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2 Respostas para “O vidente

  1. Vivemos apertando parafuso no vento, não ?
    Eu, a cada poema que escrevo, aperto mais um.

    Adair

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  2. A morte da verdade ou da racionalidade como fim primeiro de busca foi sem dúvida o que mais dificilmente eu tive – e ainda tenho – que enfrentar. A busca por conhecimento me pareceu de repente inútil, de certa forma estúpida. O que eu construía ou via construído recebeu um caráter amargo de retórica. E no entanto, não é a ausência que move o homem? Ainda não sei. Já me disseram que são as impossibilidades. Talvez seja melhor assim. Porque desde o dia de seu fim, a verdade não pára de me perturbar.
    É preciso então assumir que nada mais estamos fazendo do que escolhas e as escolhas sem justificativa sempre me pareceram um problema. Talvez a partir de agora não mais. Para Manoel de Barros e João Rosa (a quem o poema parece ser dedicado), serão todos os parafusos que de agora em diante apertarei no vento.

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